As Cidades Invisíveis - Italo Calvino

Publicado em artes e letras por em 19 nov 2003 02:11 AM | 2 comentários

O Italo Calvino é geralmente considerado, seja pelos fãs de FC&F, seja pelos "mainstreamers", como um escritor deste último campo, com uma escrita cheia de pós-modernismos, metatextualidades, o diabo a quatro. Na verdade, têm razão: o Italo Calvino é isso mesmo. Mas não deixa de ser também um escritor firmemente ancorado na FC&F, especialmente na sua zona mais fantástica e surrealista, embora chegando às margens da FC propriamente dita, por exemplo, com a colectânea Cosmicômicas.

As Cidades Invisíveis (no original, Le Citté Invisibili) pertencem ao campo surrealista. O livro é estruturado como uma colectânea de 55 mini-contos matematicamente intitulados e enquadrados por fragmentos de conversas entre Marco Polo e Kublai Kan. A história que o sobrevoa e lhe serve de pretexto trata dos relatórios que Polo faz ao rei dos mongóis sobre as cidades que visita nas suas viagens pelo grande império do Kan. Mas, na realidade, o objectivo de Calvino é traçar-nos o retrato de uma série de cidades exemplares, e como tal fantásticas, perdidas num limbo espaço-temporal onde os bazares e as rotas de caravanas se cruzam com problemas de tráfego e arranha-céus, cada uma com uma característica que a marca e distingue (e que se reflecte no título do mini-conto respectivo), e todas com nomes femininos, chegando por vezes a assaltar-nos a dúvida se Calvino não estará no fundo a falar de mulheres e não de cidades.
A estrutura do livro segue um plano rigoroso. Há cinco contos de cada tipo, ou sobre as cidades de cada tema, intitulados como "as cidades e o [tema]. n.", com n a ir de 1 a 5. Os temas (11 ao todo) vão-se alternando também segundo um plano rigoroso que define a estrutura de capítulos (que são 9), cada um dos quais precedido e seguido de um dos fragmentos de conversa referidos acima. Nada disto é, naturalmente, por acaso. Calvino, atraés deste artifício, constrói o seu livro como que armado de régua e esquadro, como um arquitecto que constrói cidades.
As cidades, em si, são fascinantes. Todas são descritas em 1-2 páginas, e são todas exemplares, oníricas, surreais. Mas são duma riqueza tal que várias vezes assalta o leitor a vontade de conhecê-las melhor, de ler romances inteiros passados nelas, de andar pelas suas ruas (quando têm ruas) ou viver nas suas casas (quando têm casas). Chega-se ao fim do livro ao mesmo tempo satisfeito e insatisfeito, querendo mais, mesmo que com a consciência de que a maioria das cidades desabaria assim que se tentasse concretizá-las melhor.
É, sem dúvida, um livro a ler urgentemente por todos, até porque, ainda por cima, está muito bem traduzido do italiano com a competência habitual de José Colaço Barreiros.
Cinco estrelas.

Faça parte da nossa comunidade. Receba o obvious da melhor forma.
* Assine o nosso feed de RSS, orkut ou twitter.
* EMAIL semanal com o melhor da semana ou EMAIL diário.

artigos relacionados

2 comentários

«Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.
- A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: - Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: - Sem pedras não há o arco.»

vger em 24 de novembro de 2003 às 12h11

- Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: - O Algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.

vger em 24 de novembro de 2003 às 12h11

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.







 
(obrigatório, não será mostrado no site)


Inagaki PHP Scripts site statistics Blogalaxia