doutores e engenheiros

Publicado em arquitectura por seven em 14 mai 2004 07:20 PM | 2 comentários

As palavras de um arquitecto...

"Longe vai o tempo em que os arquitectos eram uns ilustres desconhecidos, dir-me-ão. Não sou, porém assim tão velho que não me lembre que há vinte anos ainda era assim...

Qualquer jovem estudante que então resolvesse seguir a via da arquitectura podia ter a certeza de ver a sua mesada cortada por um pai tirano e desgostoso. As pessoas em geral ignoravam a profissão ou olhavam-na com desdém considerando-a própria de indivíduos lunáticos.
Muitas vezes nem na obra sabiam o que era um arquitecto. Uma vez fui apresentado a um empreiteiro: "Aqui este senhor é arquitecto, sabe?". Silêncio prolongado... Via-se que o homem não tinha compreendido. Por fim, fazendo um visível esforço intelectual, perguntou: "Arquitecto, mas de quê? De engenharia?"

Quando aparecíamos na obra despertávamos uma catadupa de sentimentos contraditórios entre o pessoal, que não sabia sequer como nos havia de tratar, mas que invariavelmente nunca punha o título atrás do nosso nome. Era mais ou menos assim: "Ó Sr. Zé, não viu o Sr. Engenheiro?" (o Sr. Zé era este vosso humilde criado...)
Durante muitos anos os arquitectos ou lá o que quer eles fossem situaram-se abaixo da linha de terra na construção civil em Portugal. O topo era ocupado pelos engenheiros, está claro. Sim, porque eram eles que faziam os projectos; eram eles que dirigiam as obras; eram eles que assinavam os termos de responsabilidade. Um engenheiro tinha que estudar, tirar um curso... Bom, o arquitecto parece que também tinha mas não é bem a mesma coisa!

Num nível mais avançado somos confundidos com os engenheiros, o que sendo até isonjeiro para nós nunca nos agradou muito. Sempre lutámos pela autonomia da nossa profissão e pela separação das competências. A luta (ainda) continua...

Mas os tempos mudaram e aos arquitectos de hoje é-hes reconhecido um papel social e profissional proeminente, dir-me-ão outra vez. Pura ilusão! Ainda subsistem, escondidos na penumbra, alguns focos de resistência feroz que teimam em clamar pelo regresso ao passado! Querem ver?

Recentemente fui apresentar um projecto a um cliente. Chegado ao local (uma empresa), identifiquei-me junto da recepcionista e pedi-lhe para me anunciar ao director. Ela pegou no telefone e, olhando para mim com os rolos do projecto debaixo do braço disse: "Sr. Director, está aqui o Sr. Engenheiro com o projecto." Fiz prontamente sinal com a mão e disse em voz baixa: "Olhe que eu não sou engenheiro". "Não faz mal", sussurrou a menina enquanto tapava o bocal do telefone com a mão. "Eu não digo nada ao Sr. Director!"

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2 comentários

Olá,queria dar-lhe os meus parabéns, acho o seu blog muito interessante.
Sou finalista do curso de Arquitectura da Faculdade do Porto e ao longo destes anos tenho-me debatido com as mesmas questões que são por si aqui levantadas, nomeadamente as dificuldades sentidas na relação cliente-arquitecto ( pessoalmente penso que se deveria dar mais atenção à expressão "o cliente tem sempre...(a sua)... razão", embora não aplicá-la literalmente, como é "obvious" ), e da péssima imagem que tem a profissão de arquitecta(o) em Portugal ( porque acabo sempre por ter que aguentar a extrema agressividade com que certas pessoas, com mais ou menos razão, criticam os arquitectos, por mais que explique que não tenho nada a ver com isso, que a culpa não é minha... que ainda nem sequer tenho obra construída!!!...) Uff...desculpe o desabafo.
De qualquer maneira, penso que esta situação se verifica devido a atitudes "extremistas" de ambas as partes, pois cheguei à conclusão de que a esmagadora maioria das pessoas que "dizem mal" dos arquitectos nunca na vida falaram com um, muito menos discutiram arquitectura ou vivem numa casa projectada por um arquitecto... trata-se então de simples preconceito ( muitas vezes difundido por algum engenheiro mais "bem intencionado" ), e dificulta imenso o exercício de uma profissão que é lindíssima e com a qual todos temos a ganhar. Por outro lado, por parte de alguns arquitectos, observo também uma excessiva desconsideração pelos gostos, as vontades, os sonhos do cliente, e uma sobrevalorização da imagem formal, em detrimento de outros valores tão importantes na arquitectura como são os relacionados com o uso e a apropriação do espaço pelo cliente, com a criação de espaços que proporcionem o conforto físico e psicológico adequado a cada pessoa. Na minha opinião, os arquitectos têm um contributo importantíssimo a dar à sociedade também nestes aspectos, e, caso investissem mais neles a nível de projecto, destacar-se íam dos restantes "projectistas" e sairíamos todos a ganhar, num país em que a profissão é extremamente mal vista pela generalidade das pessoas e menosprezada por uma lei caduca. E claro, as faculdades têm um papel importante a desempenhar na preparação dos seus alunos para estas questões mais...humanas...o que na minha opinião não é feito hoje em dia, inclusivé nas escolas de renome internacional, cujo sistema de ensino é logo à partida "desumano" para com os próprios alunos, pois é feito por arquitectos sem a menor vocação pedagógica, que fazem do ensino um "hobby" e depois exigem por parte dos alunos uma dedicação absoluta a nível de "tempo de vida" investido, ( com sacrifício de qualquer tipo de lazer, inclusivé aquele relacionado com a própria aprendizagem da arquitectura, como é o caso das visitas e viagens, do Ver arquitectura )para compensar a sua incapacidade de transmitir os conhecimentos mais básicos da profissão.
Não aspiro a ser uma arquitecta-estrela,que produz arquitectura "autista" para clientes que querem uma obra de arquitectura assinada por baixo para "pendurar na parede", embora actualmente em portugal sejam praticamente os únicos que possam exercer de uma maneira económicamente confortável a profissão (...ah pois é...isto não se sabe,mas há arquitectos recém licenciados a ter de receber menos ordenado que uma pessoa que faça limpeza doméstica, já para não falar dos que trabalham de graça (!))
Pessoalmente, no processo de construção da minha postura profissional, pretendo apenas afastar-me de todos os estereótipos e criar arquitectura que, sendo sempre minha, não deixa por isso de ser,(acima de tudo), da pessoa que nela habita.

sara silva em 1 de dezembro de 2004 às 13h02

olá sara...só agora estou a ler o que escreveste...mas gostava de te dizer que concordo em absoluto contigo!!é bom pensar que alguém pensa como nós...
sou neste momento estudante finalista de arquitectura na universidade de évora e penso exactamente o mesmo que tu...exigem-nos uma dedicação absoluta fazendo-nos, muitas vezes, perder o prazer de projectar!!
estamos ali acima de tudo para responder ao ideais de "mestres da arquitectura" que parecem perceber de tudo menos de Humanismo!!!
e já agora, que já estás inserida no mercado de trabalho...conseguiste que te pagassem mais do que a uma pessoa sem nenhuma espécie de qualificação académica??

cristina ferro em 16 de junho de 2007 às 09h48

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.







 
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