Conta, peso e medida

Publicado em arquitectura por seven em 8 ago 2004 03:44 PM

Não sei se conhecem aquela anedota do alfaiate que não sabia tirar medidas. Era o Silva e, não obstante esta sua pequena particularidade, era bastante conceituado lá no burgo...
Certo dia, dirigiu-se à sua loja um homem que pretendia um fato, pelo que, prontamente, o Silva lhe tomou as medidas necessárias. Passado algum tempo, quando o homem veio buscar o fato, reparou ao sair da loja que este não lhe assentava lá muito bem. Manteve a compostura e deu os jeitos necessários ao corpo para disfarçar as pequenas imperfeições. Mais parecia um aleijadinho...
Foi então que alguém comentou ao cruzar-se com ele na rua: "Não há dúvida que o Silva é um grande alfaiate... Vai ali aquele deficiente e o fato cai-lhe mesmo bem!"


Esta história serviu apenas para ironizar sobre a importância das medições no resultado final de qualquer obra, matéria que constitui, neste país, uma verdadeira dor de cabeça quando se fala de construção civil. Portanto falarei de arquitectura.

Um dos grandes problemas da construção é a passagem da teoria à prática. Refiro-me á comunicação do projecto aos responsáveis pela sua edificaçãoo. Dir-me-ão que nem todos compreendem os desenhos de arquitectura e que, portanto, isso até é natural... É evidente que quem lê os desenhos na obra é sempre alguém responsável - um director técnico, um capataz, etc. - e eles compreendem! Mas eu refiro-me sobretudo àquele que é o executante final: o TROLHA.

Para esta classe de indivíduos as dimensões, longe de serem uma coisa exacta e absoluta, constituem algo subjectivo que pode variar por diversas razões (Einstein explicou isto muito claramente...): o local, a fita métrica ou mesmo a pessoa (os erros de paralaxe não são para aqui chamados...).
Então qual é realmente o problema? Reparem bem nestas expressões, surpreendidas na altura das medições que já entendem...

"Três metros e doze? Marca três metros e dez. É conta certa..." (implantação de um pilar).
"Está um bocadinho forte..." (medida da largura da porta inferior ao previsto no projecto).
"Põe um centímetro abaixo da marca. Depois, se for preciso, faz-se um enchimentozinho..." (marcação da altura do peitoril da janela).
"O pilar está desaprumado dois centímetros. Não acha que é melhor desaprumar também a parede, para não se notar?" (tentativa de esconder um erro de merda com uma bruta cagada!)
Não tapes a ponta da mangueira com o dedo, se não esta merda fica toda desnivelada..." (já iam no 2º andar...)
"Não se pode exigir muito rigor na fase de levantamento da estrutura e das paredes! Isso tudo fica resolvido depois nos acabamentos..."

Pois. E há-de vir sempre alguém depois para esconder o que está mal...

Chegados à fase dos acabamentos seria de esperar, portanto, um maior rigor nas medições. Qual quê! Veja-se este exemplo maravilhoso: Numa dada obra foi inscrita com um marcador uma cota na parede da cozinha. Essa marca seria o alinhamento - depois de pronto, obviamente - do saco da chaminé e dos armários superiores da banca. Resultado final: o saco da chaminé ficou um centímetro acima e os armários um centímetro abaixo. Argumentação dos intervenientes na obra: "depois o carpinteiro ajusta o móvel", diz o trolha. Replica o carpinteiro: "os móveis têm a medida certa; podia lá adivinhar que o tecto estava a descair..."

Isto tudo é pura verdade. E comprovo-o com uma experiência pessoal.

No outro dia mandei cortar três espelhos para minha casa com a particularidade de terem todos medidas diferentes, embora essa diferença fosse na ordem do centímetro (deviam ter todos a mesma dimensão mas o trolha enganou-se ao rebocar a parede). O vidraceiro - um rapaz com sentido prático - entendeu que se as medidas eram tão parecidas mais valia cortar todos com o mesmo tamanho! Dito e feito! Só que não havia um único que tivesse as medidas solicitadas, pois eram todos demasiado curtos. Comentário do rapaz, visivelmente aborrecido: "Podia ter-me dito que era para ser com as medidas certas!..." É claro que ele me cortou outros espelhos, estes sim correctos (avisei-o antes que era para ser com as medidas certas!), pois não teve outro remédio se quis receber o seu dinheiro.
Em contrapartida, posso actualmente gabar-me de ser o único morador das redondezas que possui um sistema reflector de três superfícies para espantar os pardais da horta!

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