Não esperava que o meu inocente mas sincero artigo sobre arquitectura fosse alvo de uma resposta tão rápida e, sobretudo, tão apaixonada. Suponho que o autor do artigo é um arquitecto porque não consegui perceber muito bem tudo o ele disse e, além disso, porque o fez num tom que não admite discordância possível. Típico: o tal problema de comunicação que referi... Um laivo de sobranceria que se desprende do texto confirmou-me a sua formação académica e, provavelmente (a menos que esteja desempregado), profissão.
Gostaria de alimentar um debate sobre este tema que sempre me interessou e gostaria também que ele fosse genuíno e objectivo. Se o arquitecto se sentiu insultado peço-lhe desculpa, pois não tive intenção. Contrariamente ao que afirma com tanta certeza (?) não somos narcisistas, embora não tenha a certeza que não o possa dizer do hardblog...
Gostaria, antes de prosseguir, de lhe perguntar se está interessado em tal debate e se não o receia; ou se, pelo contrário, confirma a sua afirmação de que este blog é narcisista e que daqui nenhuma verdade verá a luz. Para o tranquilizar informo-o que não está perante um especialista na matéria – que Deus me livre! – mas que não irá lidar com ignorantes, nem no plano teórico nem no prático. Independentemente da resposta, desejo responder aqui ao seu artigo de forma objectiva e construtiva, ponto por ponto.
É verdade que Dom Duarte não foi muito feliz no seu comentário (esta parece ser uma característica recorrente na sua augusta pessoa) mas merece reflexão, em lugar de, pura e simplesmente, ser apelidado de ignorante. É que como ele muitos assim pensam, muitos portugueses que, não merecendo a sorte de uma educação real, são, não obstante, consumidores de arquitectura. Ou os arquitectos querem só elites por clientes?
E mais uma coisa: se a obra de Siza é “densa, abundante em referências e complexa” (a frase é sua) porque não compará-la (também) a um barracão? Ou será que a sua obra apenas pode ser discutida dentro da disciplina, como afirma no seu texto inadvertidamente hermético?
Quando me refiro a “arquitectos iludidos” quero aludir à pouca experiência – de prática profissional e também de vida – que leva a sobrevalorizar alguns aspectos em prejuízo de outros. Sabemos ou não sabemos que os jovens arquitectos dão muita importância ao desenho, à imagem e a outras questões mais “teóricas” ou disciplinares talvez por incapacidade de dominarem (ainda) os aspectos construtivos, sociais? No fundo são jovens e não lhes podemos levar a mal...
É verdade que os arquitectos, não sendo os únicos, vivem muito fechados para o seu mundo e é possível encontrar-lhes um padrão na maneira de vestir, falar – até o seu sentido de humor é diferente! Serão só estereótipos? Ah!, e todos eles querem organizar o mundo! São muito “presos” (os pintores e escultores, verdadeiros artistas, não os podem ver...) Conheci muitos arquitectos ao longo da minha vida e isto não é uma mera opinião.
Não, a arquitectura não é uma arte, porque o arquitecto não é um artista; também não é um pintor nem um engenheiro – é um arquitecto. Conheço as obras que cita a título de exemplo e recordo-lhe que os blocos de betão de Le Corbusier tem enormes problemas ao nível construtivo, social, etc.; que o Museu Guggenheim de Wright é uma obra maldita concebida e realizada na fase de senilidade do autor e que é muito pouco adequada para a exposição de quadros; que a cúpula de S. Pedro de Roma, concepção tardia de Miguel Ângelo, é um projecto megalómano de Júlio II e muito censurado no seu tempo, assim como o é a Catedral de Chartres. É perigoso olharmos para as formas desligadas do contexto que as produziu... e os arquitectos fazem-no amiúde. Ou atreve-se a negá-lo, caro arquitecto?
Sim, o Modernismo falhou, já lá vão 50 anos. É histórico. O próprio Le Corbusier admitiu-o. Que teses é que não falharam? As essenciais ou as periféricas? Não, não sabia que um dos tópicos do modernismo era a sua “constante renovação”, como afirma. Onde é que leu isso? Pensei que tinha a ver com a relação com a realidade e buscava raízes no pensamento teórico de Kant, mas confesso a minha ignorância e declaro estar aberto aos seus esclarecimentos sobre a matéria.
A lógica de tal tese pode parecer a mesma que usaria o Dr. Rangel, mas não quer dizer que não seja válida. Ou o raciocínio está errado? Então como se educam as pessoas para a arquitectura (e antes, para a cidadania) se não se consegue comunicar com elas (estou a referir-me à linguagem falada – ou escrita)? O problema é civilizacional? A culpa é deles, não é? Hum... esta é que parece a lógica do Dr. Rangel...
As causas do (vosso) desemprego também são essas, por mais que vos custe a admitir. É uma situação condenável e que eu mesmo censuro mas é verdade ou não que os arquitectos que fazem “casas com telhados” – sabe ao que me refiro... – têm mais clientela?
E cheguei o fim. Perdoe-me este exercício de voyerismo, como lhe chama, mas os não-arquitectos também têm o direito de comentar a arquitectura... até porque – directa ou indirectamente – a pagam!
Se, como suspeito, não tiver intenção de reflectir em conjunto comigo (pois que se trata apenas disso), também não lhe levo a mal. Afinal mais não faz do que comprovar a dificuldade visceral que os arquitectos têm em abrir-se ao debate extra-disciplinar. Foram ensinados assim...
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