Dizia-me um amigo meu arquitecto, que “pior do que os clientes difíceis, só as mulheres deles”. E continuou: “Só quem já passou pelas situações que eu passei compreenderá o significado profundo destas palavras”. Eu não sabia bem o que ele queria dizer, mas concordei, grave. Era melhor não o contrariar.
Mas o meu amigo apercebeu-se de que talvez eu não soubesse o real significado de cliente difícil na gíria arquitectónica e fez um pequeno parêntesis para me esclarecer. Clientes difíceis são todos!, mas alguns são mais que outros pois trazem ideias pré-concebidas – por vezes absurdas – das quais não abdicam em absoluto... Às vezes trazem já o projecto feito mas como não sabem desenhar tentam comunicar ao arquitecto o que lhes vai na mente, para que ele lhe faça a planta. Geralmente e felizmente é irrealizável. Se o cliente difícil for uma mulher, o caso complica-se... E fecha-se o parêntesis.
“Não adianta tentar discutir ou argumentar com as mulheres”, prosseguia o homem. “O simples facto de viverem em casas tornou-as especialistas na matéria e, portanto, aptas a debater taco-a-taco com o arquitecto todas as soluções arquitectónicas. Para além disso, a imaginação e a capacidade de argumentação dessas criaturas defronte um projecto de arquitectura é insuperável. São capazes de deitar por terra todo o nosso trabalho por causa do toalheiro!”, lamentava-se.
E concretizava.
“Tudo começa de forma sistemática com a encomenda de uma moradia. A senhora traz fatalmente na ideia algo que viu numa revista ou em casa dos amigos. É muito difícil ter uma conversa racional sobre áreas, custos, etc., coisas para ela pouco importantes. Se se conseguir chegar, eventualmente, a um acordo sobre os princípios gerais, isso não quer dizer nada: tudo pode mudar a qualquer momento”.
“A fase seguinte é particularmente violenta. Após ter feito o primeiro esboço do projecto, o arquitecto tem de o mostrar à cliente. Na melhor das hipóteses, o projecto aguenta-se dez minutos, o tempo necessário para ela o entender. A partir daí, é o descalabro. Quando se fala em cozinhas, por exemplo, o arquitecto não sabe nada. Sim, porque não é ele quem lá trabalha várias horas por dia, cozinhando e lavando a louça. E no que toca a limpezas, o caso é ainda mais dramático, porque a senhora tem uma metodologia muito própria neste domínio, carecendo todas as soluções arquitectónicas de aprovação superior. Por exemplo: Aquela janela ali, como é que se limpa, hum? Há espaço para colocar na entrada um tapete de cairo com quatro metros quadrados? Não?!? E essa porta aí na sala tem que desaparecer porque senão as pessoas vem do jardim com os pés sujos de terra... Que vão à volta, pela cozinha!”
“Mas entretanto surgiram dados novos: afinal ela quer mais um quarto e a garagem é para dois carros. E a sala de jantar e a de estar são separadas (Não lhe tinha dito? Desculpe...) Por fim, a décima sétima versão do projecto é a definitiva, ainda que com algumas reservas. O arquitecto pensa para si próprio que o projecto não é o ideal mas que, apesar de tudo, tem algum equilíbrio. É uma consolação breve. Quando a obra começa é que surgem as grandes alterações (Olha, ali ficava bem mais uma janela...)”
E a conversa sobre mulheres já ia longa. O meu interlocutor contou-me então a seguinte história, para concluir: uma amiga sua resolveu construir casa própria num terreno que a mãe lhe deu. Logicamente, ele mostrou-se disponível para lhe fazer o projecto, caso estivesse interessada. “Não é preciso”, agradeceu ela. “A minha mãe faz-me o projecto. Ela tem muito jeito, sabes?”
Isto é pura verdade. Eu também conheço a senhora...
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