
Há um amigo meu (arquitecto) que dizia que os arquitectos são uma classe sem classe...
Começo assim este post em jeito de resposta a um comentário que foi feito recentemente. Não é generalizável, é obvious, mas uma boa parte destes profissionais não tem, de facto, classe. E é pena. Conheço dezenas de arquitectos que assinam de cruz (toda a gente sabe o que isto é, ou não sabe?); outras dezenas que roubam literalmente os cliente e os projectos aos outros; outros que não pagam aos colaboradores (e não é por não terem dinheiro!); outros ainda que vendem o seu trabalho por tuta e meia, só para conseguir uma encomenda!
Dir-me-ão, e com razão, que esta situação não é exclusiva dos arquitectos: que os médicos, os advogados e outros profissionais liberais também fazem o mesmo e até pior. Mas é dos arquitectos que estamos a falar.
Outra questão: quando, há tempos falava com um amigo que estava a fazer casa e lhe perguntei porque não tinha dado o projecto a um arquitecto (era um desenhador que lho estava a fazer) ele respondeu-me que queria fazer o que queria; se fosse com um arquitecto a casa seria feita à moda dele e não à sua maneira. Sintomático e expressivo...
É a velha dicotomia estilística entre a linguagem modernista e o português suave. Eu, como cidadão e utente de arquitectura, sou crítico dos dois “estilos” (para que não julguem que sou algum parolo!). Quer uma quer outra linguagem são receituários relativamente fáceis de aplicar a uma casa, a um bloco de apartamentos ou a um edifício público. Acredito que o ensino da arquitectura seja feito com base num “estilo modernista” porque fácil e seguro. Sempre achei os arquitectos muito inseguros: muito rígidos, “assépticos”, lidando mal com a improvisação, a desordem ou com tudo aquilo que lhes escapa ao controlo. Qualquer artista plástico – que, regra geral, não gosta dos arquitectos por esta mesma razão! – explicará bem esta ideia.
Há uma velha história que ilustra bem isto. Um arquitecto havia desenhado integralmente uma casa até ao mais ínfimo pormenor, recheio incluído. Quando, um dia foi visitar o seu cliente ficou chocado ao vê-lo. Porquê? A razão era que ele (cliente) usava uma roupa completamente desadequada àquela divisão da casa (o arquitecto também havia desenhado a roupa, depreende-se).
Revejo-me totalmente numa observação que foi feita noutro comentário. A linguagem da arquitectura não é, provavelmente, o mais importante. Mas é para isso que as pessoas olham (que lhes interessa a qualidade espacial?). Lembro aqui – para quem não sabe ou já se esqueceu – que linguagem modernista não é o Modernismo. Esta linguagem pretendia ser o espelho de uma dada realidade, época e sociedade, estar em consonância com o seu tempo. A utopia da máquina e do progresso.
Os tempos são outros. As realidades e as utopias também. Então qual o sentido de continuar a utilizar um “estilo” moderno? É um revivalismo do mesmo nível do português suave. Eu sempre disse que muitos arquitectos andavam iludidos...
Para terminar por hoje, agradeço a todos aqueles que têm lido os meus posts e os têm comentado, ajudando a manter um debate que, espero, vá além do obvious.
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