"A frase caiu como uma bomba: a minha casa mete água, senhor arquitecto!, queixava-se uma cliente minha há pouco tempo atrás. Tinha adquirido uma vivenda numa urbanização que projectei há cerca de três anos, da qual apenas metade já se encontra concluída e habitada. E no entanto, durante a construção, todas as precauções foram tomadas. A água é filha de uma chiba – entra aqui, sai acolá!», dizia o Sr. João, capataz da obra, quando lhe falei no assunto. «Não sei o que se terá passado», acrescentou.
Na verdade, por mais cuidados que se tenha durante a execução, o malfadado líquido persiste em fazer das suas nos sítios mais obtusos que se possa imaginar, decorando com belas manchas de um cinzento esverdeado as imaculadas paredes brancas das casas. Os seus proprietários, com louvável espírito ecológico, chegam mesmo a possuir magníficas culturas de bolores, fungos e bafios multicolores que mostram orgulhosamente às suas visitas. É gratificante verificar que, nestas ocasiões, nunca se esquecem de mencionar o nome do benemérito arquitecto ou construtor responsável por semelhante atenção. Mais grave que o descrédito profissional, a água dentro de casa representa a morte social do arquitecto (R.I.P.). Definitivamente há que impedir que a água entre...
Cimentações, manilhas, drenos e barramentos estancam o movimento da água para o interior de subterrâneos e caves – e no entanto ela move-se! Para as paredes mil soluções: pinturas, argamassas aditivadas, mosaicos e azulejos evitam infiltrações – e todavia ela infiltra-se! Artigos em profusão para vedar portas e janelas: borrachas, betumes e mastiques – e contudo a água entra! Telhas e telhões, telas e aspersões, chapas e rufos protegem as nossas cabeças dos pingos da chuva – não obstante continua a pingar lá dentro! O que fazer?
O primeiro passo é descobrir a origem da verrinosa infiltração, o que se revela frequentemente tarefa impossível. Há que esperar que chova procurar os primeiros vestígios de humidade (há até quem coloque bocados de papel higénico e mata-borrão nos locais de provável intrusão hidráulica; outros preferem os marcadores aquosos...)
Porém, neste caso até foi fácil. Durante a minha última visita à obra fez-se-me luz no espírito. Enquanto conversava com o capataz acerca dos degraus da escada, o meu olhar perscrutador surpreendeu um dos operários a urinar sorrateiramente contra uma parede do rés do chão! «Sr. João:», berrei furibundo, «convoque já todo o pessoal que eu quero ter uma palavrinha com eles!». Ele assim fez, surpreso e aflito. Então, do alto de uma palete de tijolos, falei às tropas em parada...
«Ouçam lá uma coisa: vocês sabem o que é que acontece se utilizarem água salgada ou se usarem areia do mar mal lavada para fazer as massas?» Abanaram a cabeça em sinal afirmativo... «Pois é», prossegui: «as paredes ficam salitradas, com manchas de humidade, não é?» Voltaram a abanar a cabeça... «E também sabem que a urina contém sal, não sabem?» Nenhum comentário. «Pois bem, se torno a apanhar algum de vocês a mijar contra uma parede, corto-lhe a pissa!!!»
Nem sei como é que eu disse uma coisa destas mas um homem desvairado é capaz de tudo... Após um silêncio que pareceu demorar séculos os homens começaram a debandar humildemente, cabisbaixo, meios incrédulos. Trocavam alguns comentários em voz baixa, olhando para trás discretamente por cima do ombro.
O que é certo é que a situação nunca mais se repetiu...
Caros colegas: se alguma vez vos acontecer ver um homem a urinar na obra mantenham a calma. Ajam com método e determinação ameaçando-o de castração com um canivete rombudo e ferrugento (ou de circuncisão, pelo menos). Se assim fizerem ele ser-vos-á submisso eternamente. Porque, digam lá o que disserem, o que é necessário é manter a HUMILDADE NA OBRA... e tê-los no sítio!"
1 grande abraço ao meu amigo Óscar, por esta história magnífica...
Já conheçe a nossa newsletter semanal? Receba ao fim de semana o que melhor aqui se falou nos outros dias. Com base na popularidade dos artigos e no nosso criterio editorial, somente o melhor, ao sábado! Assine já!
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.