Português suave
Li um artigo de Graça Dias no Expresso desta semana intitulado O verdadeiro triunfo do ‘português suave’. Muitos portugueses o leram igualmente. Os arquitectos também. Aliás, basta percorrer a blogosfera para se ouvirem os ecos dos arquitectos indignados...
E têm razão para isso, se a indignação é genuína. As casas-suaves, ou casas-Barbie, como li aqui, são difíceis de qualificar e de um gosto muito discutível. Eu, pessoalmente, não gosto.
Mas se o arquitecto Graça Dias não está seguro quanto à “origem do fenómeno”, apontando o dedo hesitante às “campanhas de bom gosto levadas a cabo durante as décadas de 80 e 90”, eu não sou da mesma opinião. É que não me lembro – e tenho idade para isso – de tais campanhas. Foram elas implementadas por arquitectos? Vejamos:
Nessa época os arquitectos pouco ou nenhum reconhecimento tinham. O Siza Vieira era conhecido sobretudo no estrangeiro e, cá dentro, o grande nome da arquitectura era... Tomás Taveira! Sim ele, primeiro graças às Amoreiras e, posteriormente, à famosa cassete... Se isto foi uma campanha, não foi propositada nem de bom gosto, certamente!
Dei esta volta toda para dizer que esta onda de estilo português suave fica a dever-se em grande medida TAMBÉM aos arquitectos, há que dizê-lo com frontalidade! Há os que se indignam e são bastantes, felizmente. Os culpados também são bastantes, infelizmente. As gerações não são para aqui chamadas porque tanto se vêem jovens debutantes à procura de um lugar ao sol, como os chamados trutas-velhas (infinitamente piores). Mas É EVIDENTE que se trata de casas “cultas”, feitas por alguém que está por dentro, que conhece os truques...
Mas se a indignação fica bem, melhor ainda fica ver a coisa de um ponto de vista mais alargado, mais contextualizado e mais rigoroso. Saiamos, pois, do âmbito estritamente disciplinar (eu sei que os arquitectos têm dificuldade em fazê-lo...) e pensemos nisto:
Estas casas chocam? Talvez. E porquê? Pelo que parecem ou pelo que significam? É que, para a maioria das pessoas – por mais que isso custe a engolir – parecem casas e são confortáveis, até acolhedoras. Mas atentemos em muitos projectos cultos (não queria dizer de bom gosto...) e no seu ar abstracto e frio. Que dizem eles às pessoas? Parecem casas? Não. Parecem cubos, prismas, linhas e planos assépticos!
Num post já antigo sobre este tema ironizei sobre os nomes que as pessoas dão às casas feitas pelos arquitectos. Poderia acrescentar mais alguns: ala prisional, hospital psiquiátrico, como já vi. Seria bom que se deixassem de olhar para o umbigo que, como se sabe, fica situado na barriga de um arquitecto, e passassem a olhar mais em volta.
E agora um pequeno jogo. Apenas duas destas casas foram feitas por arquitectos (peço desculpa pelo "empréstimo"). Descubra quais. Que confusão, hem?...


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8 comentários
agradecia que pedisses autorização para colocares essa imagem num post teu! obrigado, joão
jmac em 8 de setembro de 2004 às 12h39
O trabalho do arquitecto deve satisfazer o Homem pois é dirigido para o mesmo e nao o tal "umbigo" que falas. Para alem desse problema evidente o cliente limita-se a opçao descrita (expresso) e muitas vezes contrariar o mesmo causa alguns trantornos. Se fizeres uma pesquisa mais aprofundada perceberas que nem todos os trabalhos de arquitectos tem esse ar frio e abstracto e que nem por isso passam a secção de "vivendas" e casas inuteis sem qualquer qualidade espacial.
Jo C. em 8 de setembro de 2004 às 23h54
A realidade é esta:
Os portugueses sejam eles cultos ou incultos, licenciados ou não licenciados gostam mais do português suave e olham com desconfianças as casa ditas modernas e porquê?
Porque se identificam mais com as casas de português suave do que com as casas do Estilo Moderno. Os modernistas e principalmente os mestres modernistas diziam que a casa era uma máquina de habitar o que é perfeitamente anti-natura.
É necessário reflectir numa arquitectura actual no qual as pessoas se identifiquem. Uma versão actualizada do português suave.
A Aranha Tecelã em 19 de setembro de 2004 às 01h23
na minha opinião, o autor dete artigo deve pesquisar, pesquisar, pesquisar, e depois de pesquisar, deve continuar a pesquisar e pesquisar ainda mais sobre Arquitectura(com A grande, atenção!!), pois quande se quer ser critico, temos de saber, conhecer, sermos humildes e compreender, só depois e bem depois criticar, bem ou mal...pela mediocridade de exemplos arquitectonicos que apresentou nas imagens, duvido que entenda ou que alguma vez tenha presenciado alguma! antes demais, Arquitectura é Arte...ñ é para todos!Arquitectura, move gostos, sensações, sentimento, que diferem de pessoa para pessoa, daí ser tão dificil discutir a sua essencia. antes de pensarmos num edificio como um objecto arquitectonico, temos de pensar no espaço envolvente, no contexto em que se insere. depois de uma análise racional, ponderada, e imaginativa podemos partir para a concepção do edificio, do ESPAÇO...do espaço arquitectónico, do alimento da arquitectura. a realidade é que é dura, má, intolerante, iracional...Cada vez mais temos projectos assinados, concretizados por arquitectos, ou por individuos que se passam por tal, ou até desenhadores sem formação nenhuma!!ah...e também a falta de vontade, de fazer algo de jeito.esta é uma realidade! não há SENSIBILIDADE...arquitectónica!!agora Arquitectura...é muito mais do que viu!!do que vê, no dia a dia...
tiago ferreira duarte em 24 de novembro de 2004 às 19h29
Caro leitor:
Antes de mais agradeço-lhe a visita e a contribuição que deu a este tema.
Leu os outros posts que tenho feito sobre a matéria? Respondem às suas questões, penso eu...
neves em 24 de novembro de 2004 às 20h21
O teu texto demonstra sem duvida a ausência cultural que existe em Portugal, principalmente no universo da arquitectura contemporânea.
Infelizmente nem todos os projectos em Portugal são feitos por arquitectos, mas também por desenhadores e Engenheiros Civis.
Se fossem só os arquitectos, era uma forma de os responsabilizar pelo que criam.
E porquê telha?
Em relação a algumas matérias querem ter posições actuais, contemporâneas, em relação a outras são uns conservadores mesquinhos, defendendo sistemas construtivos ultrapassados. È esta a mentalidade do nosso país.
A arquitectura deve ser um reflexo da vida actual, responder ao actual, em todos os seus sentidos.
maxju em 27 de fevereiro de 2005 às 04h06
Em resposta á pergunta das casas, a qual seria feita por um arquitecto, talvez as duas ou até nenuma. Uma é de habitação unifamiliar e a outra plurifamiliar, logo adquirem diferentes funções até como possivelmente não se localizão na mesma zona. Uma obra de valor arquitectónico como qualquer arquitecto deve ter isso em conta é ser bem inserida no espaço envolvente e ofercer uma boa organização de compartimentos conferindo um bem estar a quem é destinada. Apesar do funcionalismo e o organicismo serem estilos do passado deveriam ser tidos em conta nos dias de hoje.
R. Penso em 8 de junho de 2005 às 14h12
Em resposta á pergunta das casas, a qual seria feita por um arquitecto, talvez as duas ou até nenuma. Uma é de habitação unifamiliar e a outra plurifamiliar, logo adquirem diferentes funções até como possivelmente não se localizão na mesma zona. Uma obra de valor arquitectónico como qualquer arquitecto deve ter isso em conta é ser bem inserida no espaço envolvente e ofercer uma boa organização de compartimentos conferindo um bem estar a quem é destinada. Apesar do funcionalismo e o organicismo serem estilos do passado deveriam ser tidos em conta nos dias de hoje.
R. Penso em 8 de junho de 2005 às 14h14
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