
A origem das Formas
Entendo que a arquitectura não é mera pesquisa formal, como tanta vez ela é entendida pelos próprios arquitectos. No entanto, penso que é através da forma que ela comunica em primeira instância, de forma objectiva e subjectiva. A arquitectura é, pois, julgada pelo seu aspecto e pelo que significa no imaginário dos seus observadores e utentes.
Esta questão é muito interessante e podia levar-nos muito longe: as formas não surgem para resolver os problemas formais mas... os outros. Por exemplo, problemas construtivos, funcionais ou semânticos. Gostaria de pegar num exemplo paradigmático que possa suscitar reflexão. Assim, iria uma vez mais socorrer-me da máquina do tempo para tentar sondar a origem de algumas das formas mais perenes da arquitectura: as ordens clássicas.
As ordens clássicas que aparecem ao longo da História petrificadas em belos exemplares de mármore ou granito são frequentemente vistas como elementos modulares da construção que permitem de uma forma mais ou menos flexível compor edifícios. Esta visão científica abstracizante, tão ao gosto dos modernos, foi, de resto, consagrada em numerosas publicações desde De Architectura, passando pelos tratados renascentistas, até aos relatórios das expedições arqueológicas oitocentistas de Mengs e Winkelmann.
Na verdade é impensável isolar a ordem do edifício onde ela surgiu: o templo grego – uma colunata ritmada e “transparente” em torno de uma cela. A ordem só faz sentido enquadrada na origem e significação do templo grego. E a este propósito já se escreveram muitas asneiras...
Estudos relativamente recentes apontam para que a forma do templo grego tenha derivado dos primitivos santuários construídos em madeira, barro amassado com palha e colmo. Estes edifícios ostentavam já a tipologia períptera. Se pensarmos que estes santuários estavam relacionados com cultos agrários, em particular com o culto da árvore (Atena e Apolo eram associados à oliveira e ao loureiro, respectivamente), e que os rituais primevos se celebravam em bosques sagrados de ciprestes, freixos, carvalhos, oliveiras, etc., então poderemos admitir que a colunata períptera é uma reminiscência daquelas florestas originais.
Quando o templo deixou os bosques e passou a ocupar o centro das cidades a floresta consagrada encontrava-se assim representada no peristilo (as colunas evocavam troncos a brotar do solo e os capiteis enrolamentos vegetais). Os primeiros templos urbanos conservaram ainda durante algum tempo as suas estruturas em madeira mas quando ocorre a petrificação as estruturas de madeira são fielmente transpostas para a pedra, o que é notório no desenho do friso, da arquitrave e até nas próprias caneluras dos fustes (analogia com o trabalho dos ferros na superfície dos troncos das árvores), por exemplo.
E assim a forma global do templo e, por afinidade, das ordens, deriva de um conceito específico fundado em valores semânticos que ultrapassa de longe o factor puramente estético que muitos teimam ainda em ver exclusivamente. De outro modo a arquitectura seria gratuita e desprovida de sentido. A arte pela arte é uma ficção recente e não tem validade na arquitectura.
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