“History will teach us nothing” V

Publicado em arquitectura por seven em 29 out 2004 09:06 PM

A arquitectura portuguesa

A arquitectura portuguesa, popular ou erudita, sempre foi ecléctica e contraditória. Todavia, nos tempos que correm, parece querer deixar de o ser à medida que vão aparecendo cada vez mais obras tipificadas e estereotipadas correspondentes a modelos mais ou menos mediatizados. Será assim? Será um sinal de evolução ou apenas o sucumbir inconsciente de uma classe – geração? – de arquitectos a uma moda? Será que não pode haver uma arquitectura portuguesa ou, pelo menos, uma transposição de aspectos culturais autóctones? Não me refiro a uma transposição directa na linguagem arquitectónica, mas a algo mais profundo...

Eu sei que este tema é muito polémico e posso parecer até chauvinista ou conservador (é apenas um eufemismo...) ao falar dele. Mas como já perdi o medo de ser preso corro esse risco e avanço uma reflexão com o auxílio da História.

A primeira verificação que podemos fazer é que a arquitectura portuguesa sempre adoptou modelos estrangeiros. Apoia-se frequentemente neles adaptando-os à sua realidade de um modo muito característico em que predomina a eficácia e o sentido prático em detrimento da coerência ou de outros valores artísticos. Raramente é fruto de um pensamento consciente talvez devido à inexistência de elementos teóricos ou da tradição de debater temas arquitectónicos. A pureza dos modelos e sistemas inicialmente importados transfigura-se quase sempre em soluções de grande criatividade patentes na maneira como se adaptam ao sítio, aos sistemas e materiais construtivos locais, às limitações económicas e ainda às formas culturais regionais e/ou remotas.

Daqui se pode depreender que a ruptura não é uma qualidade da nossa arquitectura. Preferem-se as soluções de continuidade, de compromisso, conservadoras. Aquando da reconquista nos séculos XII e XIII, verifica-se uma implantação quase paralela dos estilos Românico e Gótico. E se na Europa central este estilo surge na sequência do Românico em grande parte por contraposição quer formal quer conceptual, já em Portugal se chega a quase a fundir com ele. Veja-se a Sé de Évora ou, a uma escala menor, a igreja de S. João de Alporão, em Santarém, onde a integração estilística é completa.

se_evora.jpg sao_joao_alporao.jpg

Esta atitude encontra eco noutras épocas da nossa história. Um exemplo paradigmático é o da reconstrução de Lisboa após o sismo de 1755, onde foram definidos com grande rapidez modos de “fazer arquitectura” que fundem sistemas construtivos e modelos do passado com importações coevas apenas com base na experiência concreta e no pragmatismo. O resultado foi espantoso.

Uma outra verificação diz respeito ao papel da fachada: a arquitectura portuguesa é uma arquitectura de fachada, melhor dizendo, de fachada principal. Esta apresenta um valor monumental e simbólico quase autónomo, pois que é frequente não obter correspondência na planta ou na organização espacial. Bons exemplos são os solares e casas senhoriais em que o tratamento majestoso das fachadas principais brasonadas entra em oposição com a precariedade das restantes fachadas; ou a igreja dos Grilos, no Porto com a sua enorme fachada que se eleva muito acima do volume da nave; ou ainda a igreja dos Jerónimos, em Lisboa, onde um grande portal com a função de entrada principal contraria toda a organização axial da igreja. Em qualquer destes casos a componente ornamental ou a própria dimensão da fachada tem mais a ver com a relação que se pretende estabelecer com o espaço exterior do que com o próprio edifício. É uma atitude muito hábil e criativa, despojada de preconceitos arquitectónicos.

grilos.jpg

solar.jpg jeronimos.jpg

Por fim uma palavra sobre o ornamento, “acessório” arquitectural actualmente muito desconsiderado. (Esclareça-se que o desprestígio do ornamento, levado a cabo pelos modernistas, teve a sua razão de ser, uma vez que era um travão à evolução da própria arquitectura, além de que esgotava prematuramente os edifícios na moda). E, no entanto, a arquitectura portuguesa sente a necessidade ornamental. Porquê? Porque essa era uma forma expedita de afirmar significados que os meios arquitectónicos não conseguiam – por incapacidade, ausência de meios ou simples pragmatismo.

E esta necessidade de “simbolismo”, de convite a uma adesão quase emotiva dos utentes ou dos simples observadores, é uma qualidade recorrente e fortíssima da arquitectura portuguesa que actualmente se pretende enjeitar em obras neutras e indiferenciáveis que por aí se vão fazendo. Recorrendo ainda a exemplos concretos do que afirmo, cito os espaços iminentemente barrocos criados com o recurso exclusivo a meios ornamentais – o azulejo e a talha dourada: a igreja da Misericórdia de Óbidos e a igreja de S. Francisco, no Porto. Nestas situações conseguiu-se criar ambientes barrocos através de “peles ornamentais” apostas a estruturas existentes sem qualquer intervenção espacial. Solução chocante ou meramente pragmática, mas certamente eficaz.

sao_francisco_porto.jpg misericordia_obidos_interior.jpg

Para meditar...

Já conheçe a nossa newsletter semanal? Receba ao fim de semana o que melhor aqui se falou nos outros dias. Com base na popularidade dos artigos e no nosso criterio editorial, somente o melhor, ao sábado! Assine já!
 
Faça parte da nossa comunidade. Assine a nossa newsletter semanal, com a seleçãos dos melhores artigos semanais. Subscreva ainda o nosso feed de RSS, twitter ou newsletter diária. O obvious é actualizado diariamente com artigos de diversas áreas.

artigos relacionados

nenhum comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.







 
(obrigatório, não será mostrado no site)


Inagaki PHP Scripts site statistics