Requerimento ao Rei

Publicado em artes e letras por seven em 22 out 2004 10:58 PM

Senhor, visto que aquela antiga fibra histórica
da Honra é coisa velha, e que não vale um chavo,
e a Justiça uma flor somente que a Retórica
põe à janela, ao sol – como a burguesia um cravo;

Visto que aquele forte e antigo herói, o Brio,
que andou na Grécia, em Roma, em Diu, Aljubarrota,
é hoje um velho tonto, asmático, com frio,
que traz um chapéu pífio e uma casaca rota;

Já que é ainda a Igreja, a exótica coruja,
que odeia o recto sol, e só em trevas anda,
e a Moral uma colcha, aparatosa e suja,
que D. Instituição estende na varanda;

Já que da antiga Lei, a deusa cuja porta
entravam a tremer as almas mais tigrinas,
resta a pele hoje só duma pantera morta,
onde se põe os pés mimosos das meninas;

Já que é "Amor do Bem", a cândida bonina,
que o Estado põe ao peito, e que enternece os tolos,
e a Economia ideal, chorosa cavatina,
que a monarquia canta em noites que dá bolos;

Já que é a Ilustração o grande dó no peito,
que a Ordem faz soltar duma garganta d'ouro,
e o Progresso, o gentil, mimoso amor-perfeito,
que a loura opinião bordou para o namoro;

Pois que chamam ao Génio um louco – que se mete
a lutar contra os reis e mais os seus furores
que não arrasta o estro em forma de tapete,
nem faz da Inspiração um capacho de flores;

Visto que é inda hoje, o heróico Pensamento,
o crânio que combusta a lava do trabalho,
um doido, um pobretão, que na trapeira, ao vento,
namora D. Ideia, e come açorda d'alho;

Visto que é hoje o Estudo um sórdido trapeiro,
cuja lanterna desce aos antros onde há gritos,
e a austera Probidade um reles pardieiro,
desabitada há muito, e há muito com escritos;

Enfim, já que não tem o Roubo antipatias,
e o ferro em brasa, o estigma, as infamantes notas,
– é preciso extirpar, ó rei! as regalias
do que furta milhões sobre o que furta botas.

É preciso extirpar o preconceito sério
contra o gatuno audaz, jovem, mas sem bom senso,
que não pôde trepar ainda a um ministério,
e teve tempo só para furtar um lenço.

É forçoso arrancar o vil labéu do pobre
ratoneiro em botão, gatuno inda em raiz,
que nos subtrai do bolso um desprezível cobre,
por não ter inda a jeito a burra do País.

E sendo iníquo, enfim, uns rirem na opulência,
outros apodrecer num cárcere corrupto...
eu ergo, ó rei! a voz ante a vossa clemência,
e em nome da Equidade, em nome da Coerência,
– requeiro a liberdade do Matuto.


Gomes Leal (1848-1921)

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