Tenho notado em muita da arquitectura corrente que se tem feito de há uns anos a esta parte no nosso país uma relação difícil com a cor. Eu explico melhor.
Basicamente encontro dois tipos: uma arquitectura “modernista” – entenda-se utilizando uma linguagem similar à do Funcionalismo dos anos 20’-30’ – muito asséptica e “deslavada” em termos cromáticos; uma arquitectura multicolorida e exuberante, como que a querer compensar a anterior, mas frequentemente chocante. Eis dois exemplos do que afirmo:


Em ambos os casos parece-me notória a falta de controlo arquitectónico ou mesmo até pictórico do elemento cor.
Esta observação dirigida aos arquitectos em geral tem uma provável origem na reduzida educação cromática de que são portadores, traduzida numa real incapacidade de produzir combinações harmoniosas de cores. Não conheço exaustivamente os planos de estudos dos vários cursos de arquitectura existentes no nosso país (são tantos!) mas não devo errar muito se disser que esta componente é praticamente omissa ou abordada de modo avulso. Talvez os curricula dos cursos de arquitectura estejam demasiadamente dominados por aspectos técnicos, secundarizando os aspectos artísticos...
Também não devo cometer nenhuma heresia ao afirmar que os arquitectos são treinados nas escolas para projectar a preto e branco, querendo isto dizer que ao elaborarem um projecto o pensam em termos quase exclusivamente formais, de um modo abstracto, como se fossem maquetas de cartolina branca. A cor surge então posteriormente quando se começam a introduzir as questões construtivas, os materiais, etc. e não como um dado susceptível de contribuir para as opções do projecto.
De resto, este défice de cultura cromática percorre transversalmente a nossa sociedade gerando frequentemente conflitos e equívocos entre os arquitectos e o público a que alguns chamam eufemisticamente questões de gosto. Afinal, se pensarmos bem, as descobertas fundamentais e as teorias relacionadas com a cor e a luz têm pouco mais de um século. Mas este aspecto é o que menos importa no caso vertente.
Julgo ser uma prática frequente entre os arquitectos o uso da cor em termos abstractos: o projecto é um desenho pintado, grosso modo. E creio que se esquecem muitas vezes factores muito concretos: os tons das sombras, o desvanecimento pela acção do sol, a alteração de tonalidade por oxidação, etc. Mas esquecem-se, sobretudo, os aspectos culturais e sociais da cor. É a sociedade que faz a cor, que lhe dá o seu significado e, amiúde, o seu nome; o arquitecto não pode ignorá-la e ater-se apenas a questões pictóricas. Quando o faz resvala numa das duas atitudes acima ilustradas.
Se bem que há quem revele desde cedo uma sensibilidade cromática apurada, a capacidade de compor as cores adquire-se, como muitas outras, com aprendizagem. Muitos arquitectos, felizmente, adquiriram-na, como Luis Barragán...

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