Os primeiros tempos da arquitectura moderna foram marcados por um cromatismo purista e minimalista derivado da estética neoplasticista; a reacção crítica do segundo pós-guerra trouxe de volta a exuberância pictórica, por vezes desregrada, do Post-Modern... Definitivamente, a arquitectura do século XX teve uma relação difícil com a cor. E no passado, como foi?
Por razões que não sei identificar muito bem mas que julgo ter a ver com a falta de rigor dos primeiros historiadores, tornou-se comum associar à arquitectura do passado – igrejas, monumentos e outros edifícios históricos – uma imagem assexuada em termos cromáticos, uma arquitectura de pedra ou tijolo completamente despida de cor.
É certo que é difícil julgar a cor do passado: a cor é também um fenómeno social e cultural e era forçosamente vista com outro olhar – e com outra luz também!... Mas não se tenha a ingenuidade de pensar nos antigos a preto e branco. Atente-se neste exemplo: as esculturas neoclássicas que floresceram pela Europa no século XIX eram brancas, com um polimento sem mácula, pois assim imitavam as originais, trazidas à luz pela Arqueologia; mas o tempo tinha apagado toda a tinta que as recobria; sabe-se hoje que as estátuas clássicas eram pintadas de tal modo que replicavam fielmente figuras humanas... E o mesmo se pode dizer dos templos gregos, que hoje ainda admiramos na nudez da sua pedra: eram profusamente coloridos!
A arquitectura do passado tinha, pois, uma relação muito forte com a cor, não só na valorização estética que daí lhe advinha como também no reforço do seu conteúdo simbólico. Investigações sérias têm revelado restos de pigmentos diversos em edifícios antigos e documentos que relatam processos mais ou menos sofisticados de obter tintas, o que parece provar que os nossos avôs não viviam num mundo a preto e branco.
Este maçador preâmbulo serve para introduzir uma experiência muito interessante e pedagógica lavada a cabo há cerca de 4 ou 5 anos na catedral de Amiens. Os portais foram fotografados de pontos de vista precisos e coloridos por processos digitais. Estas novas imagens, depois de impressas em filme, foram projectadas rigorosamente do mesmos locais onde tinham sido captadas, de modo a obter-se uma sobreposição perfeita.

Houve algumas dificuldades sérias. A primeira tem um carácter histórico: repor a cromia original com base na análise dos pigmentos, na iconografia medieval e outros documentos fiáveis; a segunda de carácter técnico: a cor da luz não corresponde à cor do pigmento e há que contar igualmente com a cor da própria superfície de projecção (a pedra). Se calhar esta interpretação acabou por ser mais artística que científica...

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