Na passada 4ª feira o arquitecto Nuno Portas escreveu no Público o artigo A Bolha Imobiliária: Causa Ou Efeito? onde tecia algumas considerações fundamentadas sobre o planeamento e crescimento das nossas cidades.
Este Sábado o arquitecto Graça Dias publicou no Expresso o texto Urbano, suburbano e antiurbano, fazendo uma forte crítica aos Condomínios Fechados, que apontava como a negação da própria vida em Sociedade.
Apesar de temer que – é o mais certo! – tudo isto cairá (uma vez mais) em saco roto, vou aproveitar para malhar no ferro enquanto ele está quente...
Sendo estas questões centrais da vida das pessoas não se entende muito bem porque a sua abordagem está tão arredada do debate público e político e, quando assim não é, se queda pela boca dos “especialistas” (que muitas vezes nada sabem)... Questões muito comezinhas, afinal, e que podiam ser, por exemplo:
· Porque é que trabalhamos numa zona da cidade e temos de viver noutra?
· Porque há tão poucas infra-estruturas urbanas nas cidades (zonas verdes, equipamentos infantis, locais de lazer, etc.)?
· Porque é que ao pé das escolas não há locais de estacionamento generosos para o embarque/desembarque dos alunos à entrada e saída das aulas?
· Porque é que as nossas estradas (e cidades) estão pejadas de camiões TIR e outros enquanto a nossa infra-estrutura ferroviária apodrece?
· Porque é que o centro das cidades – a “zona histórica” – é tão cuidada (a forma como o é feito será outro aspecto...) e as periferias – as novas urbanizações, um magnífico eufemismo... – são o caos?
· Porque se constróem tantos blocos de apartamentos para depois ficarem anos “às moscas”, literalmente?
· Porque são as habitações tão caras, sabendo que o seu preço de construção é metade, um terço e até menos que o seu valor comercial? (estamos a falar de margens de lucro de 100% e mais – que outro ramo do comércio as pratica?)
· Porque são na generalidade tão mal construídas – mal isoladas, com má exposição solar, escuras, pequenas, feias, eu sei lá que mais...
Pois é... Isto não se discute ou então discute-se apenas ao nível da Junta de Freguesia e da Comissão de Moradores, geralmente e lamentavelmente quando somos colocados perante qualquer facto consumado...
Mas as cidades não têm de ser necessariamente uma selva, um inferno, por oposição ao “campo” onde a vida é um mar de rosas. Pura ingenuidade de quem assim pensa!
Deixo-vos com um texto que Miguel Sousa Tavares escreveu há já algum tempo no Público (30 de Abril de 2004). Ele – que não é um especialista – diz com todas as letras o que qualquer cidadão poderia e deveria dizer...
“Clara Ferreira Alves - uma das raras e enriquecedoras leituras do "Expresso"- escrevia na sua última crónica acerca do deslumbramento que uma recente visita a Barcelona lhe tinha provocado e interrogava-se porque não construímos assim Lisboa e as nossas outras cidades. Barcelona é também uma das minhas cidades de referência, como o é - e falo apenas de cidades "europeias" - Buenos Aires, sobre a qual aqui escrevi há uns meses, e tantas outras: Roma, Florença, Veneza, Sevilha, Londres, Paris, Estocolmo, Copenhaga, Genebra, Viena e, posso acrescentar já ao rol por antecipação, Praga, que irei conhecer para a semana. E outra ainda, que revi, depois de prolongadíssima ausência, há 15 dias atrás: Amsterdão. Não saberia descrever Barcelona melhor do que a Clara o fez, por isso descrevo o que vi em Amsterdão.
Estava sol, o que sempre ajuda, sobretudo às cidades do Norte. Estava sol e, por isso, as pessoas estavam cá fora, ao sol: muitas nos dias de semana, quase todas no fim-de-semana. Gente reunida por famílias ou prédios inteiros, sentada nas escadas ou nas varandas das casas ou simplesmente com as cadeiras postas na rua, lendo jornais, trabalhando nos computadores portáteis, conversando por grupos ou apanhando sol, sem mais. Mas a maior parte circulava pela cidade, a pé, de bicicleta (quase todos os que se deslocavam), ou de barco, através dos canais. Paravam nos restaurantes, nas lojas, nos mercados de flores ou de livros usados, na infinidade de livrarias ou quiosques de revistas do centro, nos jardins ou nas margens dos canais, na profusão de cafés, pastelarias ou bares, onde se pode ficar até querer, simplesmente bebendo um "expresso" ou um copo de vinho branco. Visivelmente, a rua estava preparada, melhor dizendo, imaginada, para receber as pessoas. Não havia café, bar ou restaurante que não tivesse esplanada. Não havia esquina que não tivesse bar, pastelaria, restaurante, quiosque ou livraria. Não vi em esquina alguma uma agência bancária - muito menos esta recente praga do "Millenium BCP", com a sua cor púrpura ou violeta, poluindo visualmente e aos poucos todas as nossas cidades. Não é por acaso que no Fórum Barcelona, a começar já em Maio, um dos temas de exposição é justamente "As cidades e esquinas". Porque são as esquinas que fazem viver em grande parte as cidades, como ponto de cruzamentos, de encontros ou de paragem em cafés e quiosques. Entre nós, todavia, as esquinas estão a transformar-se em lugares reservados da banca.
Do ponto de vista dos nossos arquitectos, todo o centro, a imensa parte histórica de Amsterdão, é aquilo a que eles chamam depreciativamente um "pastiche": simplesmente porque é intocável. Não há ali qualquer concessão à modernidade em diálogo com a história. Todos os edifícios actuais, remodelados, reconstruídos ou feitos de raiz, obedecem aos mesmos padrões arquitectónicos que caracterizam o chamado "período doirado" - último quartel do século XVII e primeiro do século XVII - em que a Holanda atingiu o seu apogeu marítimo e comercial e a cidade foi construída. A cércea nunca ultrapassa os quatro andares e toda a construção é de tijolo, telha e vidro, sem betão, sem alumínio, sem floreados alguns. Uma monotonia para os arquitectos, um prazer para quem lá vive e por lá se passeia. A arquitectura moderna está remetida para as franjas laterais ou para a periferia, assim como a indústria e grande parte dos serviços: o centro, que é o coração nevrálgico da cidade, é para o pequeno comércio, para a habitação, pequenos hotéis, bicicletas, barcos, passeantes. Inútil acrescentar que não existe aqui um único centro comercial, muito menos essas monstruosidades desumanas tipo Colombo, Fórum Almada ou Gaia-Shoping, onde os portugueses se enterram como ratazanas, como se se quisessem vingar do sol e da luz que têm lá fora. E, como não existem esses monstros de consumo, onde, como escreveu a Clara Ferreira Alves, se tenta recriar ridiculamente os jardins, parques, alamedas e árvores que não existem ou que se deixaram lá fora, o pequeno comércio sobrevive e desempenha um papel vital na vida da cidade. Mas, também, atenção: quando falo de pequeno comércio, não tem nada a ver com aquilo a que estamos habituados: não há cafés com balcões de zinco, mesas de fórmica, máquinas que fazem um barulho ensurdecedor, acrescentado ao barulho das loiças a serem sumariamente lavadas, cartazes idiotas a anunciar que "as bebidas expostas são para consumo na casa" ou "só se aceitam cheques visados", e empregados que se esforçam até ao absurdo por não verem os clientes a chamá-los; não há mercearias e talhos com ar de tabanca africana, pindéricas floristas, lojas sempre encimadas por painéis de publicidade, montras sem qualquer brio nem imaginação. E não fecha tudo ao fim-de-semana nem atravancam as ruas com as suas cargas e descargas durante o horário normal dos dias de semana. As regras aqui são: serviço, qualidade e brio. Aí se vê também e decisivamente a diferença entre um país civilizado e aquilo que somos. Enfim, resta acrescentar que não há engarrafamentos nem buzinadelas, não há polícias à vista e a cidade é absolutamente libérrima nos seus costumes e toda a gente tem um ar de quem desfruta cada momento ali vivido.
Há coisas em Amsterdão que não são transponíveis para Lisboa: não temos uma cidade plana para substituir os automóveis pelas bicicletas, mas temos algumas zonas e alguns bairros planos, onde nada está preparado para quem queira fazer a sua vida de bicicleta (daí a hipocrisia daquela coisa anualmente repetida que é o "dia sem carros"). Não temos canais, mas temos uma frente de rio que nenhuma outra cidade tem e que é desperdiçada em quase toda a sua totalidade, entre a coutada privada do Porto de Lisboa e os assaltos sucessivamente renovados da especulação imobiliária.
É louvável que Santana Lopes anuncie a intenção de submeter a um referendo a aprovação da construção de torres, da construção em altura à beira-rio. Mas é incompreensível que, reconhecendo ele que isso irá descaracterizar Lisboa, que contraria o PDM em vigor e que não fez parte nem das suas promessas de campanha nem dos seus planos de gestão da cidade, encare, mesmo assim, a ideia de poder ir para a frente com esses projectos. Porquê, então, se eles, ao taparem o rio, não servem a cidade nem os seus cidadãos? Por servirem os interesses da construção civil e as ideias de alguns arquitectos, porque é isso que governa a cidade, antes de mais nada. Aqui há uns tempos atrás, quando se começou a discutir os projectos em altura para Alcântara, perguntava, um daqueles ridículos cartazes de propaganda em que a actual vereação gasta parte substancial do orçamento camarário: "Onde estavam então os que agora se opõem à construção em altura?" - e acompanhava os cartazes com uma fotografia de umas quaisquer torres, em lugar não identificável. Os cartazes eram bem reveladores daquilo que é a principal característica da forma de fazer política do presidente da Câmara de Lisboa: ele acha que uma polémica bem travada, um discurso inspirado e populista podem sempre disfarçar a falta de ideias e de soluções - a vitória da cigarra sobre a formiga. Respondendo por mim, posso dizer que "então" estive no movimento de cidadãos que liderou a luta contra o Pozor - um plano do Porto de Lisboa que, contando com a passividade de Jorge Sampaio, se propunha cobrir toda a frente de rio, de Alcântara ao Cais do Sodré, com uma barreira de edifícios de mais de um milhão de metros quadrados de construção. Ainda hoje, quando vou às "docas", reflicto em como valeu a pena essa luta de simples cidadão contra todos os poderes instalados, pois que as "docas", os restaurantes e bares que nasceram em vez do Pozor continuam a constituir quase o único lugar onde os lisboetas podem sentir que a cidade está ao seu serviço. Porque a questão não é, obviamente, ser a favor ou contra a construção em altura, mas sim os locais onde ela se pode fazer sem prejuízo, e aqueles onde, como na frente do Tejo, ela representa uma indecente expropriação de um usufruto de todos a favor do interesse económico de alguns apenas. E a questão é também a de saber se os PDM servem para alguma coisa ou somente para serem geridos ao sabor da força das excepções: ou seja, se servem para conter os pequenos interesses imobiliários, para depois melhor contentarem os grandes. A chave da qualidade de cidades como Amsterdão ou Barcelona é a delimitação de uma zona consolidada, onde não há construção nova nem excepções de favor, e zonas de expansão ou onde não há interesses históricos ou paisagísticos a preservar e tudo pode ser feito novo e diferente. No concreto, a questão não é saber se as torres de Siza Vieira são bonitas ou feias, mas sim a de saber se só podem ser feitas ali, com prejuízo de tantos.
Dizia a Clara Ferreira Alves que todos os nossos autarcas deveriam ir a Barcelona ou outras cidades europeias onde a qualidade de vida é o objectivo número um de quem as governa. Eu penso que eles já foram, já perceberam e nada adiantou. Era bom era que todos os eleitores das nossas principais cidades pudessem ir a Barcelona ou Amsterdão para perceberem o quanto têm sido mal governados e o quanto têm sido roubados no seu direito a uma vida urbana totalmente diferente e melhor.”
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