Louis Kahn tem sido injustamente desconsiderado pela crítica arquitectónica, onde é frequente vê-lo apelidado de historicista. Com esta classificação poderemos ser levados a pensar que se trata de mais um desencantado do Modernismo, um retrógrado incapaz de elaborar uma arquitectura para o tempo presente e que se vira para o passado, cujas formas manipula de modo mais ou menos aleatório.
É fácil ver esta característica em Kahn: teve uma formação muito marcada pela tradição das “Beux-Arts”, aliada às posteriores viagens de estudo que realizou a França e a Itália e é conhecido o seu interesse pela antiguidade clássica. Além disso os seus edifícios possuem uma imagem bem caracterizada – que chega a ser independente das suas funções ou dos locais onde são construídos – de forte sabor romano. Mas há razões profundas para ser assim.
O paradigma moderno do espaço contínuo e fluido não aparece nas obras de Kahn. Para ele o edifício é um objecto que abriga, o que justifica a opção pelo seu encerramento, mas implica ao mesmo tempo um grande investimento no tratamento da relação interior/exterior. Este problema é resolvido mediante a utilização de um método compositivo clássico que consiste no emprego de estratos sucessivos – caixas dentro de caixas – mas que resulta em edifícios com forma compacta e centralizada.

Do ponto anterior decorrem os sofisticados sistemas de iluminação e climatização dos espaços centrais, tão característicos das suas obras. É a luz, conjugada com a estrutura, que confere a qualificação aos espaços. Podemos ver estes dois elementos presentes logo nos primeiros esboços dos seus edifícios.

Ao nível da composição a sua arquitectura é feita da adição e justaposição de partes muito individualizadas, um conjunto de edifícios muito complexos quer em si mesmos quer na sua implantação. Está aqui presente toda a lição da arquitectura romana condensada na Villa Adriana: a capacidade para conferir a tantos materiais heterogéneos (tipologias, técnicas de construção, tempos de execução, etc.) uma unidade, não de organismo unitário mas de relações espaciais. Não é uma apropriação da História pela rama mas sim o seu entendimento profundo!

Pessoalmente entendo que a obra de Louis Kahn foi das mais importantes do século XX. Ela expressa uma crítica aos códigos linguísticos elaborados pelo Movimento Moderno e sobretudo à síntese que o “Estilo Internacional” tinha vindo a fazer desses mesmos códigos. Para isso apoia-se na segurança proporcionada pela herança clássica, procurando recuperar algumas “palavras” que, segundo ele, possuiriam um significado canónico transcendente ao tempo e às sociedades: simetria, integridade, perfeição, proporção, clareza.
Historicista, apenas?
Nota: Agradeço ao Saliências da Razão ter-me recordado este magnífico arquitecto.
Já conheçe a nossa newsletter semanal? Receba ao fim de semana o que melhor aqui se falou nos outros dias. Com base na popularidade dos artigos e no nosso criterio editorial, somente o melhor, ao sábado! Assine já!
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.