Ornamento e delito
A maioria dos arquitectos em exercício revê-se facilmente neste chavão, como parece justificar a sua arquitectura “limpa” e desornamentada. Eu, pessoalmente, também prefiro a contenção ao descontrolo decorativo e muito menos ao exagero em que tantas vezes redunda – e sei porquê! Mas não estou certo que muitos arquitectos que partilham o meu gosto saibam o porquê da sua opção. De resto, já o defendi aqui neste blog...
De qualquer modo, independentemente da nossa adesão e predilecção por uma determinada estética “purista”, o ornamento não é per se algo nefasto. Basta recordar a importância que tiveram os grandes programas ornamentais escultóricos na afirmação de conteúdos simbólicos nas catedrais medievais ou mesmo o papel da ornamentação na arquitectura erudita portuguesa. No fundo, é preciso saber trabalhar com ele. E alguém vos ensinou isto nas vossas escolas, senhores arquitectos?
Julgo que é basicamente uma questão de formação. As escolas de arquitectura “vendem” uma imagem que os alunos consomem – sei que há professores que obrigam literalmente os seus discípulos a projectar de acordo com a “receita” que lhes fornecem e eles não têm outro remédio se não mimar os mestres se querem conseguir uma boa classificação! Depois mecanizam os “tiques”, sistematizam os modelos e padronizam o seu gosto ao longo do curso. Raros são aqueles que, já formados, se libertam ou criticam a imagem de arquitectura que aprenderam a produzir. Estou enganado?
A estética anti-ornamental assume, pois, contornos de um verdadeiro dogma e chega ao ponto de estigmatizar aqueles que a não perfilham, mesmo entre os próprios arquitectos. De onde vem então tamanho ódio ao ornamento? Talvez seja afinal um equívoco – mais um! – herdado do Modernismo. Vale, por isso, a pena analisar a sua origem e reflectir.
O conceito, formulado sob esta forma, foi enunciado em 1908 pelo arquitecto vienense Adolf Loos na revista Das Andere, onde publicava regularmente escritos de carácter pedagógico e não só de arquitectura (até nutricionismo!). Note-se que Loos não tem pretensões de criar um “estilo” e que, nesta data, a linguagem funcionalista ainda não tinha nascido. Por isso, a sua postura não é meramente estética – é sobretudo social. No seu texto relevam as seguintes questões:
a) o ornamento faz com que um edifício “morra” assim que a sua moda passa, isto é, antes de se esgotarem as funções para que foi construído; a sua vida estética deve, pois, ser igual à sua vida física;
b) sendo assim, representa um esbanjamento de recursos: material estragado e trabalho desperdiçado;
c) o ornamento diminui a categoria das obras; o seu custo devia ser investido na qualidade dos materiais;
d) o ornamento gera assimetrias sociais porque faz persistir um trabalho artesanal mal pago em relação a outras profissões.
São questões que fazem sentido na Viena de há cem anos atrás, além de que – facto não despiciendo – representam também o auge de uma cruzada contra as formas clássicas e académicas que se arrastaram ad nauseam ao longo do século XIX. Mas pergunta-se legitimamente: ainda fará sentido hoje, mormente no nosso país? Ou as causas que justificaram o postulado de Loos já não existem? Vejamos.
a) actualmente a morte dos edifícios não é ditada pela não aceitação da sua forma mas da sua função – deixou de servir, deita-se abaixo;
b) a renovação e a reciclagem geram dinâmica nas indústrias e criam postos de trabalho;
c) a tecnologia e os processos de racionalização de custos actuais permitem obter produtos de excelente qualidade a preços baixos;
d) o trabalho artesanal é, hoje em dia, pago a peso de ouro...
Eu sei que esta transposição é meramente operacional mas terá o mérito de nos fazer pensar sobre a persistência num dado princípio estético de um modo dogmático sem nos interrogarmos sobre os seus fundamentos. E isto, penso que se ensina aos arquitectos nas escolas. Ou não?
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