Le Corbusier
Embora não se possa chamar descaradamente ”um equívoco” ao arquitecto do século XX (que não era arquitecto...), muitos equívocos houve que tiveram origem nas suas teorias e que ainda hoje persistem. Algumas interpretações menos correctas dos postulados do mestre, outras fora do contexto, outras ainda pura adulação formal são os equívocos mais comuns.
Le Corbusier teve um percurso artístico muito sobressaltado. Passou por muitas fases e renegou algumas das suas convicções iniciais – um sinal da sua inteligência brilhante, digo eu. A sua postura na arquitectura passava muito pela acção/intervenção: formulação de teses e imediata aplicação em projectos, muitas vezes utópicos. Quando os consegue construir aparecem autênticas pedradas no charco: a Villa Savoye, o Bloco de Marselha, o Convento de La Tourette...
Mas muitos ideias ficaram no papel: em desenhos, como o Plano Voisin, a Ville Radieuse, o Plano Obus para Argel, ou em escritos. E esta actividade de Le Corbusier foi de grande importância. Com efeito, sabe-se que a sua principal fonte de rendimentos não eram os projectos mas os textos, as conferências, etc. E quem o viu falar sabe como era brilhante, apaixonado, convincente, arrogante e... demagógico! Era alguém que já tinha a noção da importância dos mass media. Tenho a certeza que ele próprio sabia as limitações dos seus postulados assim como sabia que se tratava de um jogo em que se ganham umas coisas e se perdem outras. Quem até hoje o seguiu, imitou ou aplaudiu provavelmente não tinha essa clarividência...
Note-se que algumas das suas teorias foram responsáveis por muitos dos males que afligiram e afligem as nossas arquitecturas e as nossas cidades: a teoria do zonamento como forma de organização do território; os blocos habitacionais sobre pilares no meio da “Natureza”; a arquitectura/receita para qualquer lugar do planeta...
Acontece que Le Corbusier foi único... As suas doutrinas não resultaram nas mãos de outros mas nas suas parecem formidáveis! O seu génio frequentemente ultrapassa os seus pressupostos no desenho, transformando-os ou negando-os. Le Corbusier é um executante, um pragmático e não um retórico. E é essa genialidade da execução que muitos idolatram e confundem, infelizmente, com as suas teorias utópicas...
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