A janela e a sua congénere mais proeminente, a varanda, são os elementos arquitectónicos de representação social que as pessoas têm à sua disposição. Ao Poder – a Praça; ao indivíduo – a janela!
Se, para o arquitecto, a janela serve basicamente para a iluminação, a ventilação e para a relação visual com o exterior dos edifícios, para o comum dos mortais serve sobretudo para se mostrar... Se tiver à frente uma varanda então é ouro sobre azul! Mas atenção: o fenómeno é apenas observável nas moradias; nos apartamentos é omisso, talvez por receio da reacção dos outros condóminos.
Com efeito, não há coisa, a seguir ao automóvel, onde as pessoas exibam tanto o seu estatuto (o que têm de facto e o que gostariam de ter, sobretudo este último...) como a sua “vivenda”. Por isso recorrem tão poucas vezes a um arquitecto e amiúde a um “jeitoso” – é que este último desenha alegremente e sem problemas todos os devaneios que o cliente sonhou e se julga no direito de fazer, pagando, evidentemente. Já com um arquitecto não seria assim... Mas os arquitectos – estou farto de o dizer! – excluem deliberadamente este tipo de clientela por manifesta incapacidade de lidar com as suas solicitações, perdendo assim uma boa fatia do mercado e a hipótese de intervir mais “pedagogicamente”...
(Um arquitecto meu amigo contou-me uma história espantosa de uma senhora que lhe pediu que lhe fizesse uma casa com varandas no rés-do-chão! Ele escusou-se amavelmente dizendo que não sabia fazer tal coisa. Mas a senhora insistiu: “Não sabe como? Não andou a estudar?” A resposta do arquitecto foi inspirada: “Sim, andei, mas a verdade é que faltei a essa aula”...)
Estes atributos arquitecturais que têm uma especial relevância no Sul da Europa assumem em Portugal dimensões perfeitamente assustadoras. Não há janela/varanda de vivenda que não tenha balaústres, guardas em ferro forjado, ferragens em latão oxidado, vidros cinzelados, candeeiros e apliques de estilo, cortinados e reposteiros de ricos tecidos em fantasia (caríssimos!), aplicações em madeira, revestimentos pétreos, floreiras com arrebiques e sei lá mais o quê!
Como se isto não bastasse, há ocasiões especiais é que é necessário um reforço estético e simbólico dos ditos atributos: casamentos, baptizados, comemorações, festa da terriola, Santos Populares, Páscoa, Natal... Os elementos decorativos são heteróclitos e adequados à situação, variando a sua proveniência do mundo vegetal à loja do chinês. Por ocasião do Euro 2004 foram as bandeiras (nem todas elas nacionais) que estranhamente ainda se mantêm em muitas casas, talvez à espera que o sol as coma de vez.
Recentemente foi a vez dos Pais Natais. Uma autêntica invasão: são às centenas, milhares, uma chusma deles! E trepam por todo o lado: pelas paredes, portas, chaminés, janelas, varandas, antenas... Parece o cenário de um filme de terror! Eles vieram buscar-me... Não!!! Não!!! SOCORRO!!! AAARRGGGHHHHHHHH!!!...



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