
Li este fim de semana um artigo no Expresso – suplemento “Espaços & Casas” (link não disponível) que a Câmara Municipal de Paços de Ferreira está a construir um conjunto de casas para alojar pessoas de etnia cigana. A notícia nada teria de especial não fosse o caso de esta operação dar resposta às necessidades não só habitacionais como também socioculturais. Trata-se de “moradias étnicas” concebidas pelo arquitecto Paulo Bettencourt.
O artigo explica o que são: seis moradias sociais com características muito próprias destinadas a dar resposta aos hábitos culturais dos seus moradores” (...) quase não têm divisões internas, à excepção dos quartos e casas de banho. Característica também é a total ausência de separação entre a cozinha e a sala que se apresentam como um todo e onde até mesmo o fogo marca presença (...) é possível ter uma fogueira no interior e cozinhar no fogão de sala.
Mas também a organização do conjunto habitacional foi “etnicamente pensado”: todas as habitações estão voltadas para um pátio interno em forma de “U” destinado à realização de festas e fogueiras nocturnas. O projecto contempla também um logradouro destinado a albergar os animais, as carroças e um espaço de garagem colectivo.
Até aqui tudo bem. A iniciativa merecia aplauso a todos os níveis. Mas depois olhei para o aspecto das casas... e em nada diferiam de uma banal urbanização ou até de um condomínio fechado! Os volumes cúbicos, as platibandas escondendo os telhados, as superfícies lisas, as palas, a conjugação dos (poucos) materiais de revestimento, a contenção decorativa... déjá vu.
Porquê? Se o arquitecto conseguiu pôr no projecto as características funcionais adequadas aos utentes porque não fez o mesmo em relação aos aspectos semânticos? Por incapacidade? Por desvalorizar esse aspecto? Deliberadamente, procurando evitar “contrastes”? Questão antiga e eternamente adiada. E esta era uma boa oportunidade que, infelizmente, foi desperdiçada.
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