Linguagem arquitectónica I

Publicado em arquitectura por seven em 8 jan 2005 09:18 AM | 4 comentários

Na revista...

revista.gif A linguagem que os arquitectos utilizam quando escrevem é paradigmática... Será que a arquitectura que fazem é tão complexa que não pode ser traduzida em palavras e frases simples? Porque escrevem sempre textos ininteligíveis e obscuros?

As memórias descritivas dos projectos são herméticas e inextricavelmente cerzidas de modo a afugentar os leitores não iniciados. É claro que, quem aprova os projectos raramente as lê... Um arquitecto meu amigo costumava escrever coisas engraçadíssimas nas memórias ciente que ninguém as lia. Um dia leram e pediram-lhe para redigir outra sob pena de não lhe aprovarem o projecto. Pediram-lhe mesmo alguns esclarecimentos sobre a construção que estavam omissos no seu texto, nomeadamente “como é que se seguravam as longas guardas horizontais das varandas”. Ele assim fez e respondeu que, quanto às guardas, não podia dizer porque era segredo...

Quando, porém, instados a escrever um texto para acompanhar um projecto seu numa revista, esta linguagem rebuscada atinge o seu refinamento e grau de complexidade máximo: o discurso torna-se verdadeiramente nebuloso e até filosófico! Expressões do tipo “o objecto arquitectónico assume-se como (...) elemento de charneira (...) no equilíbrio da ruptura (...) entre a forma e o programa (...) na eficácia do rigor do desenho (...) na apropriação do sítio (...) entre transição e continuidade (...) acentuando a sua objectualidade (...) introduzindo-lhe uma nova dimensão e abrindo-o a novas leituras (...) na dialéctica da História” polvilham amiúde estes textos elucidativos!

Repare-se na extensão dos períodos e na utilização sistemática dos verbos no gerúndio. Já para não falar nas citações oriundas quase sempre da literatura, poesia e filosofia. Ah! e “estabelecer relações”. Quase todos os projectos “estabelecem relações” sem fim com “o local”, com “as preexistências” ou, simplesmente, com “o exterior”... Algumas relações são mesmo fantasmagóricas de tão sumidas, como aquele arquitecto que desenhou uma casa que toda ela estabelecia relações com uma árvore que depois foi derrubada durante a construção!

Os textos das revistas destinam-se a ser lidos pelo público em geral pois são instrumentos de educação (o termo é forte, mas enfim...) e divulgação importantes. E, se o público tem por vezes dificuldade em entender as imagens que as obras veiculam, os textos deviam colmatar essa falha – deviam ter uma missão pedagógica. Mas isto não interessa pois, na verdade, as revistas de arquitectura destinam-se exclusivamente... aos arquitectos. Desconfio que nem eles próprios percebem muito bem os que os colegas escreveram! E o pior é que, infelizmente, a sua arquitectura enferma muitas vezes do mesmo mal...

Faça parte da nossa comunidade. Receba o obvious da melhor forma.
* Assine o nosso feed de RSS, orkut ou twitter.
* EMAIL semanal com o melhor da semana ou EMAIL diário.

artigos relacionados

4 comentários

Pois é, as vezes me parece que isso é pra explicar coisas que na verdade não têm explicação, ou, importância. Mas isso não acontece só com os memoriais descritivos, acontece, e talvez até mais, com os artistas plásticos e os críticos. Estão tentando "cientificar" algo que as vezes é tão simples...Talvez todo mundo tenha que se lembrar mais da velha frase bauhausiana "menos é mais".
Abs!

Cris Alcantara em 9 de janeiro de 2005 às 00h50

Concordo plenamente. Ainda me estou a rir com essa brincadeira que o seu amigo fez na memória. Relativamente a esses textos ininteligíveis, estou sempre prevenido com um dicionário de Português constituído por 5 volumes e de 150 páginas cada... mas mesmo assim, às vezes, surgem interpretações sem sentido algum. Gostei muito desta sua observação, já me tinha surgido esse pensamento, mas sempre pensei que era eu que não tinha poder intelectual suficiente para interpretar esses textos.

Vamp em 12 de fevereiro de 2005 às 07h13

A frase que me lembra mais esta situação é "o rei vai nu". Enquanto público tenho sempre a sensação de que estão a bricar comigo ou a fazer de mim estúpido...

neves em 12 de fevereiro de 2005 às 16h40

para mim é uma maneira de explicar as coisas que nao podem ser explicadas de outra maneira e se nao tem formaçao para entender um tipo de linguagem (arquitectonica)devem adquiri-la porque a arquitectura vai para alem da realidade.porque interpretar a realidade é facil mas interpretar sensaçoes nao é para qualquer um. com ja referi acima a arquitectura é uma arte multidisciplinar que aborda todo o tipo de questoes que estao inerentes aos nossos dias em que vivemos. o nosso pais esta desta maneira porque os portugueses nao vem alem do conceito mecanizado que está instituido em portugal.

Carvalho em 16 de março de 2005 às 15h13

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.







 
(obrigatório, não será mostrado no site)


Inagaki PHP Scripts site statistics