Na revista...
A linguagem que os arquitectos utilizam quando escrevem é paradigmática... Será que a arquitectura que fazem é tão complexa que não pode ser traduzida em palavras e frases simples? Porque escrevem sempre textos ininteligíveis e obscuros?
As memórias descritivas dos projectos são herméticas e inextricavelmente cerzidas de modo a afugentar os leitores não iniciados. É claro que, quem aprova os projectos raramente as lê... Um arquitecto meu amigo costumava escrever coisas engraçadíssimas nas memórias ciente que ninguém as lia. Um dia leram e pediram-lhe para redigir outra sob pena de não lhe aprovarem o projecto. Pediram-lhe mesmo alguns esclarecimentos sobre a construção que estavam omissos no seu texto, nomeadamente “como é que se seguravam as longas guardas horizontais das varandas”. Ele assim fez e respondeu que, quanto às guardas, não podia dizer porque era segredo...
Quando, porém, instados a escrever um texto para acompanhar um projecto seu numa revista, esta linguagem rebuscada atinge o seu refinamento e grau de complexidade máximo: o discurso torna-se verdadeiramente nebuloso e até filosófico! Expressões do tipo “o objecto arquitectónico assume-se como (...) elemento de charneira (...) no equilíbrio da ruptura (...) entre a forma e o programa (...) na eficácia do rigor do desenho (...) na apropriação do sítio (...) entre transição e continuidade (...) acentuando a sua objectualidade (...) introduzindo-lhe uma nova dimensão e abrindo-o a novas leituras (...) na dialéctica da História” polvilham amiúde estes textos elucidativos!
Repare-se na extensão dos períodos e na utilização sistemática dos verbos no gerúndio. Já para não falar nas citações oriundas quase sempre da literatura, poesia e filosofia. Ah! e “estabelecer relações”. Quase todos os projectos “estabelecem relações” sem fim com “o local”, com “as preexistências” ou, simplesmente, com “o exterior”... Algumas relações são mesmo fantasmagóricas de tão sumidas, como aquele arquitecto que desenhou uma casa que toda ela estabelecia relações com uma árvore que depois foi derrubada durante a construção!
Os textos das revistas destinam-se a ser lidos pelo público em geral pois são instrumentos de educação (o termo é forte, mas enfim...) e divulgação importantes. E, se o público tem por vezes dificuldade em entender as imagens que as obras veiculam, os textos deviam colmatar essa falha – deviam ter uma missão pedagógica. Mas isto não interessa pois, na verdade, as revistas de arquitectura destinam-se exclusivamente... aos arquitectos. Desconfio que nem eles próprios percebem muito bem os que os colegas escreveram! E o pior é que, infelizmente, a sua arquitectura enferma muitas vezes do mesmo mal...
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