Linguagem arquitectónica II

Publicado em arquitectura por seven em 10 jan 2005 09:12 AM | 1 comentário

Na obra...

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Se por escrito e nas revistas os arquitectos usam uma linguagem hermética, já nas obras se passa exactamente o contrário. O entendimento com capatazes e operários é frequentemente difícil e as suas consequências são desanimadoras ou até catastróficas. Por isso o arquitecto procura não só adoptar um discurso acessível como também aprender as nomenclaturas e os dialectos próprios do pessoal, sem o que não haverá comunicação. Não basta por o capacete e calçar as galochas: é preciso “entrar na pele” do pedreiro, do trolha e do empreiteiro e dominar a sua linguagem.

O arquitecto crédulo e bem intencionado tentará logo usar um discurso “barato” que pensa ser comum entre os trolhas, do género “Ó Zé, quando é que se enche esta placa?”... Nada mais perigoso. Corre o risco de ser corrigido pelo trolha, que lhe “ensinará” que se deve dizer “betonar a laje”... Por isso é melhor esperar que sejam eles os primeiros a atacar para depois tentar decifrar o enigmático termo e adicioná-lo ao glossário.

Mas isto nem sempre resulta, pois alguns termos tem um âmbito verdadeiramente restrito e só o pessoal daquela obra é que os conhece!!!. Por exemplo, numa obra os operários chamavam Sr. Aníbal ao nível de bolha e Labibéca (?) ao berbequim (corruptela da palavra Black & Decker, concerteza). Frase escrita num bocado de saco de cimento: “Ti Alfredo trazer mais refumé”. Que significa isto? Nada mais nada menos do que Roofmate, designação comercial das placas de poliestireno extrudido!

Na fase da betonagem é frequente ouvir falar nos azimbres, nas confragens (sic) e nos negativos; a rebarbadeira substitui vantajosamente a rebarbadora; os telhões são as telhas da cumeeira e o talão é o comprimento da telha; há tripés com dois pés e até alguns só com um pé; o prumo é tão somente a garrafa de cerveja; a tesalha – nome magnífico! – designa vulgarmente a tesoura de cortar ferro (ao que parece é uma contracção fonética maliciosa das palavras tesoura e cisalha)...

O pior é quando é perguntado ao arquitecto de chofre: “Ó Sr. arquitecto, esta parede é gateada ou chanfrada?”. É que uma parede paralela a outra (galgada) pode tornar-se subitamente perpendicular (esquadriada) se o arquitecto revelar uma ponta que seja de ignorância. Verdadeiramente dramático!

Dizia um arquitecto com muita experiência de obra que a melhor maneira de evitar mal entendidos é chamar "esta merda" a tudo. Por exemplo: “Ó António, esta merda está toda torta!”.

Experimentem e vão ver que funciona.

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1 comentário

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Magnifico

Arq. Ribau margaça em 2 de junho de 2008 às 17h33







 
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