Nova Arte Nova
A estranheza da expressão equipara-se à estranheza da obra: uma casa Arte Nova feita no final do século XX! Poderíamos dizer, como o outro, que “primeiro estranha-se; depois entranha-se” mas uma coisa destas custa a entranhar-se-me...
Já não é a primeira vez que se coloca aqui a questão das utilizações actuais de estilos do passado relativamente à sua pertinência e legitimidade. São questões em permanente discussão nunca esgotada. A este respeito diria apenas duas coisas:
a)se é pertinente utilizar actualmente um estilo com 100 anos, ou seja, se aquilo que fez triunfar a Arte Nova no seu tempo se aplica com vantagem agora, solucionando os nossos problemas – penso que não! A Arte Nova permitiu uma renovação da estética arquitectónica e decorativa com a integração de novas técnicas e materiais que não tem correspondência presentemente.
b)se é legítimo o recurso ao seu vocabulário formal no tempo presente, ignorando a abissal diferença de contexto a todos os níveis e tudo o que entretanto se passou – a resposta é igualmente não!
Mas há outras coisas que julgo serem tão ou mais merecedoras de reflexão. Por exemplo, a ligeireza com que se propõe e constrói uma coisa destas, como se bastasse ir à gaveta da História tirar algo já esquecido mas que possua um grande potencial estético/mediático, tal como um re-mix musical de êxitos do passado. Só que a arquitectura não é música comercial..
Outro aspecto me surpreendeu e chocou. Na sua essência, a arquitectura Arte Nova não foi meramente cenográfica, se bem que para aí tenha resvalado nos exemplos menos cultos ou mais distantes dos grandes centros (Bruxelas, Paris, Barcelona, etc.). Bem pelo contrário, o espaço era a sua preocupação nuclear em virtude das possibilidades que lhe eram oferecidas pelos novos materiais de então.
Lamentavelmente aqui nada disso acontece (daí a sua utilização não ser pertinente) e o estilo é meramente epidérmico. Atrás da opulenta janela que domina a fachada, onde seria suposto haver uma biblioteca ou uma sala, no mínimo, encontra-se... uma ridícula cozinha. E isto, parecendo que não, é sintomático.
E não posso terminar sem chamar atenção para o magnífico pormenor das âncoras a envolver as janelas...



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