Arquitectura e Urbanismo

Publicado em arquitectura por seven em 11 fev 2005 09:01 AM

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Recentemente andei a dar umas voltas pela cidade e arredores com um amigo. Objectivo: comprar uma casa.

Viu-se de tudo: magníficas moradias bem organizadas e de aspecto sóbrio a preços estupidamente altos, pese embora uma péssima localização; casas localizadas em zonas agradáveis e sossegadas com bons acessos mas mal organizadas e com aspecto piroso; outras em locais igualmente favorecidos mas com problemas de má construção; enfim outras bem organizadas com espaços exteriores cuidados mas com uma envolvente desinteressante...

De tudo o que foi visto verificou-se que o factor com mais peso na escolha não é a casa em si mas a localização. De um modo geral são mais pretendidas as habitações situadas em locais sossegados, com uma densidade de construção pequena, volumetria baixa, espaços públicos generosos e bem tratados, com algum comércio e equipamento. Curiosamente - ou não! - os exemplos mais caros situam-se em zonas deste tipo, o que parece confirmar o que foi dito.

A casa em si fica em segundo plano. Factores como o aspecto (moderno ou tradicional, sóbrio ou exuberante), exposição solar, organização do espaço interior e exterior e características construtivas (infra-estruturas, acabamentos, isolamento, etc.) contam pouco. Por incrível que pareça são mais importantes neste domínio as áreas e os "espaços secundários" (a cave, os arrumos ou o sótão) do que as características arquitectónicas... Cuidem-se, senhores arquitectos!

Será que as pessoas são estúpidas ou pouco informadas? Ou será que têm razão? Este é um tema de reflexão muito interessante e, julgo, uma possível chave para entender o que se passa no nosso país.

No que respeita à arquitectura num sentido estrito – as casas – talvez haja muita ignorância entre o público em geral. Mas se entendermos a arquitectura num âmbito mais alargado, o da organização do espaço (há quem lhe chame discutivelmente urbanismo), verifica-se que até existe um relativo bom senso, mais do que o mero senso comum. Com efeito, a maior parte das pessoas “ignorantes de arquitectura” têm uma ideia de cidade bastante sensata, ideia esta que até é muito coincidente com a dos arquitectos em geral.

Arquitectos: será que não era necessário ganhar primeiro esta guerra – que também é política! – antes de pensar em ganhar a guerra do gosto? O que nos separa dos padrões europeus a este nível é mais a qualidade da organização espacial das cidades do que a qualidade dos edifícios que as compõem. Abaixo a Arquitectura e viva o Urbanismo? Isto a mim dá-me que pensar...

E, já agora, uma piscadela de olho aos fãs do Modernismo: uma das principais razões do triunfo e da aceitação da nova arquitectura foi justamente o seu entrosamento com propostas para a cidade. Veja-se o Bairro Törten, de Gropius, o Plano Voisin para Paris, de Le Corbusier ou mesmo a Urbanização Kiefhoek, de Pieter Oud.

PS – Condomínios fechados não valem!

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