
Familiares
Há pessoas que não deviam ter família. Quais? – pergunta o leitor curioso e indignado. As que exercem certas profissões que, não sendo de risco, são altamente susceptíveis de gerar trabalho não remunerado em favor dos supracitados familiares, claro está. Os médicos, os Técnicos de Informática ou os Arquitectos são alguns (tristes) exemplos.
Um médico, por exemplo, chamado a ver um enfermo aparentado, far-lhe-á meia dúzia de perguntas rotineiras acompanhadas de uma breve auscultação que terminará fatalmente na prescrição de um xarope ou de uns comprimidos, perdendo não mais do que 10 minutos com isso. A um Informático, convocado por um parente afastado (e geralmente nabo) aflito com o facto do seu PC não arrancar, bastará remover a disquete de dentro da respectiva drive para solucionar o bicudo problema (alguns segundos de tempo perdido)...
Mas quando há parente arquitecto na família a coisa fia mais fino porque o seu semelhante, que apenas pretende um rabisco, não imagina o trabalho e a despesa que isso dá! Não há comparação possível, portanto.
Regra 1: os primeiros projectos de um arquitecto são sempre para familiares e são invariavelmente horrorosos (os projectos e, frequentemente, os familiares). E, subitamente, o arquitecto dá-se conta de possuir uma enorme quantidade de primos, cunhados, sobrinhos em diversos graus, todos eles ansiando por ver construída a “casinha dos seus sonhos” (sic).
Regra 2: são todos uns tesos porque não têm dinheiro para pagar ao arquitecto que é primo, cunhado ou tio. Isso não impede que sejam os felizes proprietários de um magnífico terreno de 1000 m2 que faria inveja a muitos... Eis algumas expressões seleccionadas do vocabulário argumentativo parental:
“Ai de ti se levas alguma coisa ao teu primo!"
“Eu sei que tu fazes isso com uma perna às costas...”
“Está descansado que eu pago-te as despesas todas!” (esta, além de perigosa, é cínica).
Regra 3: o facto de ostentarem uma consanguinidade remota com o arquitecto dá-lhes o direito de intervir activamente no projecto. Aliás, para eles o projecto é um livro aberto, em constante mutação, e fica-se a perceber que a arquitectura é uma coisa bastante simples, afinal.
Terminamos com o testemunho pungente de um arquitecto:
“Soube por interposta pessoa que um primo meu queria fazer obras em casa embora nunca me tivesse pedido nada. Talvez tivesse vergonha de me pedir uma borla, pensei eu com os meus botões... Qual quê!? Certo dia telefonou-me e disse-me de chofre que um amigo desenhador lhe tinha feito o projecto, se eu me importava de o assinar e quanto é que lhe levava!
Refeito da surpresa, disse-lhe que não podia fazer isso porque, para além de ir contra os meus princípios, era ilegal. A conversa ficou por ali e ele desligou o telefone muitíssimo chateado comigo. Mais tarde vim a saber o verdadeiro motivo da sua zanga através de um amigo comum que o ouvira comentar à mesa do café:
Aquele bandido!!! Fazer-me uma coisa destas, a mim que sou primo dele... Agora vou ter que dar cem ou duzentos contos a um gajo qualquer que nem conheço para me assinar o projecto!”
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