
A poesia
De todos os exemplos de janelas que dei aqui há dois tipos a que tenho ódio de estimação porque a) são feíssimas; b) revelam uma insensibilidade a raiar o obsceno; c) representam o que de pior pode ser feito na arquitectura (com a minúsculo neste caso). Eu explico.
As primeiras são as pequenitas janelas de 1,20m de largura por 0,80m de altura. Já as devem ter visto concerteza, quer em blocos de apartamentos quer em moradias, quer no rés do chão quer no 7º andar. São todas iguais, de correr ou de abrir, em madeira ou alumínio. São lisas, sem moldura e têm a caixa de estore bem marcada por cima com uma faixa de reboco do tipo “carapinha”.
Quem as faz só pode alimentar um profundo desprezo pela arquitectura e pelas pessoas. Porque estas janelas têm uma proporção horrível; porque iluminam muito mal o interior; porque são muito pequenas; porque a fachada fica feíssima; porque não é possível sentarmo-nos a olhar por elas; porque nem os cortinados lhes ficam bem!
Quem as faz assim julga serem “tradicionais”, embora não tenha a mínima ideia do que isso significa. Na verdade não percebe nada do assunto pois não tem qualificação para tal. Vê-se positivamente à rasca para desenhar a fachada ou o alçado como dizem os arquitectos! Se não fosse obrigatório as casas terem janelas suspirava de alívio mas como não é possível espeta-lhes com esse carimbo bruto a que chama “aberturas”.
As segundas são aquelas fachadas todas em vidro, fumado ou espelhado, com “aplicações” de ar condicionado que recobrem invariavelmente os edifícios de escritórios, comerciais e até mesmo alguns habitacionais.
Aqui temos uma arquitectura (?) projectada por “profissionais”, gabinetes técnicos especializados que põem cá fora um projecto completo em quinze dias! Assim mesmo. Isto é possível porque só desenham as plantas, ou melhor, um esquema feito por cima de uma quadrícula onde apenas são colocados os acessos e os sanitários. O resto é open space. Não se perde tempo a desenhar a fachada porque é tudo vidro (alguns aproveitam mesmo o papel quadriculado da planta). Muito moderno e muito confortável sobretudo...
Quem não achará muito confortável são os utentes: não podem abrir uma janela porque não há; apanham calor ou frio consoante a orientação solar da fachada (para o “projectista” deste tipo de edifícios este aspecto não é importante); o ar condicionado, quando existe, provoca-lhes asma e bronquite crónica. Também aqui se verifica uma falta de respeito enorme pelas pessoas, a começar pela sua saúde.
Num caso e noutro há uma real incapacidade de entender o que é uma janela na sua essência, em primeiro lugar, e em saber desenhá-la, em segundo. E se aos primeiros se desculpa (?) a ignorância já aos segundos se deve exigir a pena capital!
Está a tornar-se cada vez mais raro ver um casa com janelas bem desenhadas e fachadas bem proporcionadas, agradáveis por dentro e por fora. Acho que deve ser muito difícil desenhar uma boa janela. Se calhar era das primeiras coisas que se devia ensinar num curso de arquitectura. Como dizia o poeta: o mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
Onde está a poesia das janelas?
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