Aprender a arquitectar

Há dias defendi aqui a necessidade de uma certa maturidade para o acto de arquitectar. Esse atraso, por assim dizer, na entrada de funções do arquitecto permitir-lhe-ia adquirir a serenidade e os conhecimentos necessários ao exercício do seu complexo mister.
Desejo completar hoje aquela reflexão. É minha convicção que os estudantes dos cursos de arquitectura existentes neste país não se encontram suficientemente preparados para a prática da arquitectura à data da conclusão do seu percurso académico. Apesar de não conhecer em pormenor os curricula de todos os cursos que cá se ministram (que são imensos!) é notória a existência de diversas lacunas nos jovens arquitectos. Sabem fazer desenhos interessantes (nem todos...) mas faltam-lhe outros conhecimentos de grande importância, porque a arquitectura não é só desenhar...
Uma das lacunas mais evidentes situa-se ao nível da prática: o contacto com a obra, o relacionamento com os intervenientes no projecto e na obra, a gestão de todo o processo, etc. Também tenho notado uma grande impreparação no domínio artístico e humano, que deviam ser duas áreas fortes da formação do arquitecto.
Num certo sentido a formação académica dos arquitectos devia ser semelhante à dos médicos. Estes, desde o início, têm uma importante componente prática ao ponto de não fazer sentido haver uma faculdade de medicina desligada de um hospital. Também a formação dos médicos tende para a especialização, tão vasta é a área da medicina; o mesmo deveria acontecer com a arquitectura... Finalmente a transição para a vida profissional, no caso dos médicos, é bastante longa de modo a assegurar a sua preparação, modelo que também se poderia aplicar aos arquitectos.
Resulta isto em que não se é médico de pleno direito antes dos 30 anos e é justo que assim seja porque não se brinca com estas coisas. Bom, pelo menos é esta a teoria... Como também não se brinca com a arquitectura - até porque esta tem sérias implicações na saúde das pessoas! - só vejo vantagens em adoptar um modelo de formação equiparado ao dos cursos de medicina: percurso académico de cariz vincadamente prático, especialização, transição adequada ao exercício das futuras funções e responsabilidades.
Vá lá, crucifiquem-me outra vez...
Guarde ou partilhe este artigo
Faça parte da nossa comunidade. Receba o obvious da melhor forma.
* EMAIL semanal com o melhor da semana ou
EMAIL diário.
* Assine o nosso
feed de RSS ou
twitter.
artigos relacionados
8 comentários
Falar com os clintes é uma chatice(a questão de dar a volta), os estagiário não são respeitados nas obras, fazer orçamentos e consultar mil e umas especialidades é uma tarefa hérculea e mal paga, ter em tempo útil na cabeça, preços de míriades de materiais tb é chato...
O curso é demasiado generalista de conteúdos, tal como a profissão(sempre achei ridículo a especialização d q tanto se fala agora)para sairmos preparados para a prof...mas tb...estágiários explorados n é o caminho a seguir...já q n conheço patronos q em início de carreira tenham passado por situação semelhante.
Ricardo Dias em 23 de abril de 2005 às 12h34
Eu sou arquitecto e a minhã irmã está a tirar medicina, logo entendo perfeitamente o texto, e as tuas preocupações.
De facto quando acabei o curso e comecei a trabalhar reparei que nos falta aprender muita coisa! Tenho a sensação que na empresa onde estou a trabalhar, aprendi mais durante este ano e meio do que durante os 5 do curso...
A minha irmã, dois meses depois de iniciar o curso já andava a contactar pessoas nos hospitais e a tomar conhecimento "in loco" de como as coisas funcionam na realidade. No nosso curso dizem-no como se passam as coisas... é diferente a realidade.
Já tive oportunidade de comentar algo do género com o Ricardo Dias no blog dele.
Quanto ao estágio da ordem dos arquitectos, prefiro nem comentar publicamente...
norberto silva em 27 de abril de 2005 às 15h51
Pois é também essa a minha opinião, meu caro... às vezes vejo arquitectos carregados de papeis com desenhos que lhes levaram imenso tempo a fazer para orientar o pessoal na obra. Uma conversa no local com "as mãos na massa" seria bem mais eficaz
seven em 27 de abril de 2005 às 22h33
Deves ter construido a tua primeira casa, deste umas barracadas do crl, e agora vens para aqui alertar o pessoal, importante é desenhar boa arquitectura o resto vem por acréscimo, respira fundo e mantem a confiança.
Parabens pelo blog
arq|estagiário em 2 de maio de 2005 às 23h34
Quem, eu? Credo! Isso não deve ser assim, uma forcinha e pronto. É precisamente isso que eu critico...
seven em 2 de maio de 2005 às 23h53
Ora ai está uma boa ideia. Não nego que é complicada a transição da faculdade para a prática profissional...
Pedro Alves em 9 de agosto de 2005 às 13h02
Não vai comparar profissões necessárias e indispensáveis para a população (como médicos e enfermeiros) com arquitectos... que em momentos de crise são os primeiros a ser eliminados, pois são dispensáveis. Qualquer um saber arquitectar... não é preciso tirar um curso!
medico em 21 de setembro de 2005 às 00h51
"Não vai comparar profissões necessárias e indispensáveis para a população (como médicos e enfermeiros) com arquitectos... que em momentos de crise são os primeiros a ser eliminados, pois são dispensáveis. Qualquer um saber arquitectar... não é preciso tirar um curso!"
Visão de doutor! O caríssimo deve pensar que arquitectar resume-se a fazer casas, por isso em momentos de crise (algo que tem de especificar melhor) são eliminados (que outra palavra não pode ser!)
Arquitectar qualquer um sabe! Essa parece tirada da frase da tia que, com o seu olhar "treinado" perante a obra de um pintor, declara: Isto até o meu sobrinho fazia!
Não deve entender que a arquitectura é uma actividade do homem para o homem e que contem três vertentes: artistica, tecnica e cientifica, daí ser multidisciplinar e complexa.
Não se compreende esta arrogância cientifica...medicina: o curso intocavel e incomparável! tem receio de quê?
A em 24 de abril de 2007 às 22h33
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.