O Tempo e a Arquitectura



Não, não se trata da versão portuguesa de um famoso livro de Giedion... É algo bem mais prosaico. Sei que alguns de vós – os arquitectos, sobretudo – me vão querer crucificar depois de lerem o que se segue. Mas sou livre de expressar a minha opinião e é o que farei. Começo assim:
Tenho notado que em quase toda a actividade humana mas sobretudo a intelectual ou artística as obras mais interessantes são produzidas na fase madura dos seus autores. Há quem lhe chame “velhice”. Não emprego este termo porque está conotado com uma fase de declínio e perda de capacidades, o que não é totalmente correcto. Acontece que nas sociedades ocidentais, onde o pensamento Moderno deixou marcas, o “novo” tende cada vez mais a sobrepor-se ao “velho” e também as pessoas são incluídas neste jogo perverso.
Puxando agora o assunto para o campo da arquitectura lembro-me de dois casos exemplares: Frank Lloyd Wright e Le Corbusier. Sabiam que a maior, mais interessante e mais inovadora produção do arquitecto americano ocorreu a partir dos 70 anos? A casa Kaufmann, Taliesin West, a fábrica Johnson & Co., o museu Guggenheim, o arranha-céus de 1 milha... Impressionante para um “velho”, não? E Le Corbusier, nos seus últimos anos, teve a coragem de renegar tudo aquilo por que se bateu toda a sua vida e que o identificou como o grande mestre do Funcionalismo. Foi neste período que fez a igreja de Ronchamp, o convento de La Tourette, Chandigarh, etc. Brilhante. E os exemplos podiam continuar.
Onde é que eu quero chegar? Aqui: acho que a arquitectura pelas suas características próprias e implicações na vida das pessoas é uma actividade que precisa de tempo, experiência, serenidade – coisas de “velhos” tipicamente! Não basta ter um diploma outorgado por um curso de cinco anos para poder fazer arquitectura porque não se tem idade para isso, pura e simplesmente. Fazer arquitectura não é fazer desenhos por muito bonitos que eles possam parecer. A arquitectura é demasiado complexa e constitui um acto de grande responsabilidade.
Assim como há cargos que requerem idade mínima também devia haver idade mínima para se exercer arquitectura. Os jovens licenciados passariam uma temporada após a conclusão do curso a completar a sua formação e a tomar contacto com a realidade. Talvez lá para os 40 anos tivessem a serenidade necessária para empreender um projecto a sério.
Para terminar só mais um exemplo, o derradeiro: Louis Kahn. Todas as suas obras são feitas depois dos 50 anos, pois até essa idade estudou, viajou, reflectiu. São obras de formas magníficas, inovadoras, calmas, significantes – literalmente obras-primas!
Vá lá, crucifiquem-me então...
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13 comentários
Por que sabedoria está associada com "velhice" ?
Por que responsabilidade está associada com "velhice" ?
Errado, não?
Por que um jovem arquiteto não pode construir uma verdadeira obra de arte?
Sabedoria+"velhice" são coisas que me irritam quando estão inseparavelmente empregadas.
Thais em 11 de abril de 2005 às 21h59
Oi! Concordo com você, acho que a grande obra só acontece qdo o criador já trabalhou mto, experimentou e construiu uma linguagem...Por isso cada vez mais vai ser raro surgirem gênios, pelo menos nas artes plásticas. Mas acho que existem dois (que eu me lembre) que fogem dessa regra: Tom Jobim e Oscar Niemeyer, jovenzinhos eles já criavam obras primas.
Cris Alcântara em 12 de abril de 2005 às 09h16
Há muitos que fogem à regra. São os génios, estrelas cadentes demasiado brilhantes que cruzam o céu dos mortais como nós: Picasso, Mozart e mais um punhado deles...
seven em 12 de abril de 2005 às 21h31
"Talvez lá para os 40 anos tivessem a serenidade necessária para empreender um projecto a sério."
ISTO É PLEONÁSTICO! lol
grande parte deste arquitectos foram o q foram porque tomaram à sua responsabilidade projectos desde muito cedo...principalmente o Le Corbusier, com muitos erros e palsos em falso.
Ricardo Dias em 12 de abril de 2005 às 21h56
Tempo, experiência, serenidade e restaurador Olex.
"-Desculpe, mas eu tenho 40 anos, não sou velho..."
"-Pois olhe, não parece...E já estamos servidos."
Lembram-se?
Neste tempo a hiper-modernidade (ainda não conseguimos sair desta coisa da modernidade no tempo), não é ser jovem é ser, já! E com isto nunca se chega a ser jovem. Esse é o problema, que nos faz parecer tudo sempre tão imaturo... Porque de resto, o tempo, a experiência, a serenidade necessária á obra artística, sendo que a arquitectura pela complexidade e cruzamento de interdisciplinariedades, compromissos, coordenação, que exige,(talvez seja a mais exigente das produções artiísticas...)podem ocorrer em idades curtas.Pois que a juventude é, também ela, Tempo.
A questão é mais aquela que faz com que muitos jovens arquitectos confundam "BRAMANTE com - som produzido por animal já extinto..."
Como escrevi, há uns tempos atrás.
H. Ventura em 12 de abril de 2005 às 23h07
A questão não está tanto na idade, mas na capacidade de conseguir estar-se nas tintas para o que os outros pensam e dizem sem se ser arrogante...
Ricardo em 19 de abril de 2005 às 14h00
"Talvez lá para os 40 anos tivessem a serenidade necessária para empreender um projecto a sério."
Olha, não consigo preceber nem por sompras tais afirmações, nunca ouviste que de pequenino se torçe o pepino rapaz?
Os arquitectos que referencias-te, foram grandes arquitectos devido à sua iniciação na arquitectura desde tenrra idade, muita experiência é necessária para ser refeflectida anos mais tarde.
Este teu Post, é um assunto um pouco já batido e desactualizado, não te esqueças que estamos na era da informação, as coisas.
Já agora aconselho-te a repetires a licenciatura, olha e faz um projecto ou vai de servente para veres como são as obras, a partir do primeiro não custa nada acredita.
A tua arquitectura hoje não será a de amanhã, ninguem sabe a arquitectura de amanhã.
Já agora tenho colegas de 40 tal anos que acabaram o curso comigo provavelmete pela tua ideologia elitista e conservadora estas pessoas nunca serão arquitectos.
enfim ve lá se fazes o UPGRADE, não te esqueças que ser arquitecto é uma profissão não é um hobie, é preciso ganhar a vida
e Parabens pelo teu blog tá muito fixe, presumo que sejas um moço velhinho?
arq|estagiário em 2 de maio de 2005 às 23h21
Mas o que é que vos leva a supor que eu sou arquitecto? E já agora que sou "velhinho"? Não defendo a proibição de fazer arquitectura aos jovens; apenas digo que a boa arquitectura vem com a idade. E nem só a arquitectura... Mas estas coisas são muito sérias porque mexem (muito) com a vida de (muitas) pessoas. Daí eu achar que é necessária uma certa maturidade...
seven em 2 de maio de 2005 às 23h51
Sem duvida que sim, mas da forma que colocas a questão dás-me a entender que :
"Não basta ter um diploma outorgado por um curso de cinco anos para poder fazer arquitectura porque não se tem idade para isso, pura e simplesmente. "
Não te esquecas que um curso de arquitectura leva 6 anos para ser tirado, são muitos anos a fazer projectos mensalmente e a falar de arquitectura diariarmente, axo que não podes colocar a coisa dessa forma.
Frase de alguem que deve ter muito dinheiro:
"Os jovens licenciados passariam uma temporada após a conclusão do curso a completar a sua formação e a tomar contacto com a realidade. Talvez lá para os 40 anos tivessem a serenidade necessária para empreender um projecto a sério."
Podes-me dizer do que vives tu ?,
Pq eu tenho 26 anos sou arquitecto estagiário, e pela tua ideologia aos 40 posso tou pronto para fazer arquitectura a sério, até lá morro de fome.
Olha tou a gostar do teu blog, e se não és arquitecto desde já as minhas felicitações pelo interesse demonstrado, um dia destes crio um blog e vais la tambem dar-me na cabeca. :)
arq|estagiário em 10 de maio de 2005 às 21h39
Obrigado pelo comentário. Muito sinceramente, seis anos a fazer projectos e a falar arquitectura não bastam porque isto não é fazer arquitectura - é teoria. Pode-se fazer arquitectura, claro está, mas acho que a sua qualidade se ressente da juventude do seu autor porque lhe faltam conhecimentos de vida que têm um papel muito importante na criação arquitectónica.
O que se pode fazer até aos 40 anos para não morrer de fome? Tanta coisa... não são só os arquitectos que se debatem com o desemprego mas que lhes fazia falta um tirocínio profissional, lá isso fazia...
seven em 10 de maio de 2005 às 22h18
Pois, tudo bem, só que o que lhes permite chegar aos
70 anos e fazer obras primas é a experiência pessoal
que adquiriram a fazer arquitectura durante mais de 30 anos, não estiveram propriamente fechados em jaulas a comer bananas!
Pedro Alves em 9 de agosto de 2005 às 13h09
sim, isso é tudo muito bonito, todos vão concordar ctg que para se fazer arquitectura é preciso uma cultura e "bagagem" de trás, mas saliento o facto de nem todos temos pais ricos e depois da licenciatura e respectivo mestrado, necessitamos de ganhar algum, e esse algum, não se ganha ganhando "bagagem".
Um professor meu dizia que, ás vezes, mais vale estar num atlier a dobrar folhas de vegetal e a ver boa arquitectura, do que estar a fazer arquitectura só por fazer.
Cumprimentos
Bruno em 13 de janeiro de 2008 às 22h07
seven em 13 de janeiro de 2008 às 22h50
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