A ditadura do desenho

Uma das coisas que me faz uma certa impressão em muita da arquitectura que se produz hoje em dia é a quantidade de desenho. Eu explico melhor. Há uma grande preocupação em detalhar imenso os projectos e as obras. Desenha-se a casa, os móveis, os tapetes, as louças sanitárias, os candeeiros, os utensílios domésticos, os jardins, as roupas de cama, os cortinados, as ferragens... Ainda por cima com um desenho asséptico e agreste, de tão mínimo que é.
É a ditadura do desenho que tudo sacrifica à ordem, à linearidade, à pureza, à geometria, à coerência das linhas no papel que depois é transposta para a arquitectura sem outro significado que seja “seguir o desenho”. Acredito que, para um arquitecto, seja mais fácil ou mais lógico alinhar, racionalizar ou encontrar singularidades geométricas sobre a folha de papel.
Os arquitectos exibem um sentimento de possessão muito forte em relação ao que projectam, ainda que nem sempre de modo consciente. Um projecto é um filho nascido na dor e no sangue! Além do mais, possuem a convicção de que todos os não-arquitectos são ignorantes na matéria, ou seja, representam um perigo para o seu nascituro. Vai na volta pretendem que os seus projectos sejam concretizados fielmente como se fossem objectos cristalinos e perfeitos; aspiram a que funcionem de acordo com a harmonia que idealizaram; querem que assim se mantenham indefinidamente ou eternamente, se possível. Narciso?
Para isso tem à sua disposição uma parafernália de ferramentas temíveis a começar pela sua capacidade e obsessão pelo desenho; programas informáticos que simulam os ambientes projectados; regras e traçados geométricos draconianos. Nesta óptica o projecto ideal é aquele que é concebido e concretizado de acordo com os desejos do seu autor desde as fundações até ao parafuso!
Mas isto raramente acontece e felizmente que assim é. Porque quem constrói a obra tem uma palavra a dizer; porque os seus utentes lhe dão usos completamente diferentes (principalmente se tiverem CRIANÇAS!!!); porque há surpresas, umas agradáveis e outras nem por isso; porque não se pode pensar em tudo; porque o tempo - dizem - é um bom escultor. E não vale a pena culpar o empreiteiro ou o cliente...
Com menos desenho todos teríamos a ganhar. Talvez então a arquitectura se tornasse verdadeiramente um acto comum com verdadeiro sentido social. Mas ela não é isso mesmo?
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5 comentários
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Longe dos conhecimentos de arquitectura gostei, contudo, de ler este post.
hfm em 19 de maio de 2005 às 14h39
O problema meu caro é que muitas vezes o resultado final não tem nada a ver com o que o arquitecto idealizou...Imagine que de repente "todos os seus desejos arquitectónicos" se concretizam num projecto e que, feita a obra, por via de todas as interferências de clientes cultos, pedreiros iluminados, constructores "desinteressados", se transforma no objecto das suas criticas!
De facto, é de salutar que se interesse tanto por esta área, não tendo - ao que parece - formação arquitectónica, mas demonstrando por outro lado alguma cultura e conhecimento da área.
No entanto, nesta vida, a "praxis" é insubstituivel e quem nunca teve "filhos", muitas vezes manda "bitaites" ingénuos, é inevitável...
Serve este comentário para tentar refear algum do seu entusiasmo já que a profissão de arquitecto debate-se com muitas dificuldades, sendo que a principal é precisamente o desprezo com que somos tratados.
A critica é positiva, o bitaite não...
Porque é que aquilo em que você defende e acredita deveria ser feito e aquilo que um arquitecto projecta e portanto acredita, deve ser adulterado?
Pedro Alves em 9 de agosto de 2005 às 12h54
so' para começar, ignoraste o facto de os utentes do espaço a criar pelo arquitecto, sao preocupaçao deste e orientam o programa. o programa nao e' nunca criaçao do arquitecto, este apenas o interpreta. dps, o desenho e' a base do projecto, o arquitecto nao vai poder nunca projectar o q n consegue desenhar, logo para isso tem q o fazer... e para q o faça cada vez melhor, convem que desenhe, desenhe muito! nao consigo compreender como e' q as coisas poderiam melhorar com menos desenho... é completamente descabida essa ideia.
rehcse em 14 de junho de 2007 às 19h51
"o arquitecto não vai poder nunca projectar o que não consegue desenhar"
Esta frase, a sua simplicidade, resume tudo o que é a necessidade de desenhar para projectar.
Não compreendo em que medida é "improvisar" na arquitectura vai fazer com que esta sirva melhor as suas funções... Desenhar um projecto não implica que este seja não seja flexível na sua utilização: pelo contrário, desde que o arquitecto tenha como intenção essa flexibilidade, o desenho vai contribuir para que essa intenção seja cumprida.
Desenho é a forma de comunicar do arquitecto. Se este não desenhar, as suas intenções serão deturpadas... e se é isso que se pretende, porquê requisitar sequer os serviços do arquitecto??
Ruffisa em 3 de janeiro de 2008 às 18h14
Meu caro amigo, passei por acaso neste site, e foi com espanto que reparei neste seu texto.
Deixe-me lhe dizer que não é meu objectivo corrigir nem tão pouco colocar em causa a sua opinião, mas sim ajuda-lo a entender de um modo fenomenologico esta questão do desenho.
Penso que não seja o próprio acto de desenhar que está em causa, mas sim o que leva ao acto. O arquitecto, personagem desentendida na maior parte das vezes, tem como por objectivo interpretar os sentimentos dos seus clientes relativamente ao que lhe pedem. Deste modo e antes de qualquer ferramenta informática ou de um simples lápis, o arquitecto pensa. E é neste acto que nasce a criança, de um modo transcendental e unico no modo em que este representa a sua experiência de vida.
O desenho é uma forma de linguagem que expressa a ideia conceptual do arquitecto, ou de um pintor ou de alguem que diz que não sabe desenhar, mas que se esquece que esse é tambem um modo de se expressar.
Não iremos concerteza generalizar o facto de alguns arquitectos venderem a sua imagem, desde a forma de uma janela até ao logotipo inscrito no faqueiro que desenhou para aquela determinada casa.
O que importa aqui é pensar que o Arquitecto não é só um técnico que se limita a passar as ideias do cliente para o registo desenhado. Se assim fosse, que pobre seria, e não será pobre de facto a nossa sociedade?
Não faço parte daqueles que julgam que sabem tudo, não faço parte daqueles que não permitem que os critiquem, mas faço parte daqueles que ainda acreditam que a Arte de Projectar será um dia reconhecida como uma ferramenta que permite que outros usufruam daquilo em que o Arquitecto sonha.
Cordialmente, João Carlos
João Carlos em 11 de junho de 2008 às 23h43