Os azulejos têm desempenhado um papel importante na caracterização da nossa arquitectura, tradição antiga que só se desenvolveu de um modo significativo a partir do século XVII. Actualmente a tradição já não é o que era (?) e na maior parte das vezes o mau gosto impera e a coisa resvala para o kitsch. É pena. Tornou-se comum verem-se nos muros das vivendas azulejos como este:

Provavelmente adjectivaremos o pequeno painel como ridículo, não só pela forma como pela atitude em si. Mas isto não é assim tão simples e, pelo menos a mim, dá-me que pensar... Na verdade talvez esta seja a mais antiga tradição azulejar entre nós, herdada, surprendentemente, dos romanos! Entre os múltiplos painéis decorativos em mosaico que revestiam as villae romanas contava-se o Cave Canem - literalmente Cuidado com o cão! - que era colocado à entrada e que tinha uma função simultaneamente decorativa e informativa.

Segundo a tradição isto teria então todo o cabimento e ponto final no assunto. Mas a tradição não legitima tudo e não se deve mantê-la cegamente. Para além da qualidade técnica de ambos os casos ser muito distante a diferença de significado é abissal porque o contexto também o é. Era prática corrente entre os romanos revestir todos os seus objectos funcionais com uma pele significante que ia desde as ordens gregas a painéis deste tipo, tudo integrado de forma brilhante. Ora isso já não faz qualquer sentido hoje em dia porque o contexto mudou radicalemte. Estas tentativas de significação são pura e simplesmente patéticas porque descontextualizadas. O processo é idêntico ao de uma anedota onde a "piada" surge fora de contexto. Estes azulejos são, por isso, uma anedota.
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