PERIGO: ARQUITECTURA!


Coimbra - Parque da cidade. Passei por lá há pouco tempo e o local é agradável. O arranjo do parque propriamente dito é interessante: relvados, caminhos pedonais, passadiços de madeira, água, iluminação e alguns objectos arquitectónicos, como lhe chamam os arquitectos. Não me agrada especialmente o tipo de edifícios que ali se encontram, demasiado agressivos nas suas formas geométricas assépticas mas são opções discutíveis, apenas isso.
O que me preocupou verdadeiramente foram aquelas plataformas estendidas sobre o rio que as imagens retratam. Reparem como elas se enquadram na estética minimalista e purista de toda a arquitectura do parque. Foram projectadas com todo o rigor e requintes de desenho pelo seu autor. Muitos bonitas, sim senhor! É pena não oferecerem nenhuma segurança. O corrimão não tem nenhuma resistência pois é feito de um tubo metálico fino que estremece ao mínimo esforço; mais abaixo dois cabos de aço que não protegem, apenas magoam. O pior é que em alguns sítios não há sequer uma guarda - a plataforma termina abruptamente!
No entanto, estamos perante uma obra "culta", feita por um arquitecto - um artista, como alguns defendem. Tretas! Esta é uma arquitectura que não o é; é uma arquitectura virtual feita para as (más) revistas de arquitectura; é uma arquitectura desumana; é uma arquitectura perigosa. É o que dá alguns arquitectos julgarem-se artistas: esquecem-se das pessoas.
Julgar-se-ia que o "lapso" arquitectónico seria resolvido presumivelmente com o reforço das guardas e a vedação total de todo o perímetro das plataformas sobre o rio. Qual o quê? Isso seria mexer na obra do artista e, pior ainda, destruir todo o conjunto. A solução adoptada foi certamente ideia do arquitecto: uma pequena placa pendurada no corrimão, para não estragar a estética, (assinalada com um círculo vermelho na imagem) com o aviso: PERIGO: NÃO SE DEBRUÇAR! Eu sugiro outro texto: PERIGO: ARQUITECTURA!
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8 comentários
As plataformas não inspiram muita segurança, é certo, mas esqueces-te de dizer que a margem do rio não terá mais de 30 cm de profundidade.
Não me agrada particularmente os "objectos" distribuídos pelo parque, decorrendo estes apenas da formalidade e suporte do desenho por parte do autor sem qualquer outra intenção (preocupação).
Contudo apraz-me dizer que o parque da cidade é bastante agadável numa cidade sóbria em espaços verdes, pena é que a prospecção imobiliária já tenha danificado irremediavelmente a relação do parque com a cidade. Este sim parece-me ser o maior pecado.
nt em 23 de junho de 2005 às 13h38
o que se pretere em nome da estética!
Ricardo Dias em 23 de junho de 2005 às 15h13
O Siza no seu IMAGINAR A EVIDÊNCIA diz o seguinte: «Prefiro a convivência entre peões e automóveis, que é tão viva em Roma, na multiplicidade dos diálogos e porventura dos insultos. (…) Esta insistência paternalista em reduzir ou eliminar perigos é contraproducente, porque quando uma pessoa sai de uma rua reservada a peões encontra, repentinamente, todas aquelas ameaças das quais está menos habituada a defender-se.
O peão sabe mover-se na cidade, sem serem necessárias protecções obsessivas, como demonstram os quilómetros de canais em Veneza, sem parapeito e sem vítimas.
A piscina de Leça da Palmeira funciona ilegalmente porque não foram aplicadas algumas medidas de segurança; não obstante, nunca ali se verificou qualquer incidente.»
As pessoas sabem movimentar-se não há necessidade de paternalismos e guardas em pedar de metro e meio. Essas guardas que falas funcionam visualmente,são sinais: "Aqui é o limite."
Da única vez que lá fui o parque parece funcionar bastante bem e, espanto dos espantos, ninguém caiu à água!...
(não sei porquê, mas os parágrafos parecem não funcionar nos comentários)
archibaldo em 24 de junho de 2005 às 00h29
eu sou estudante de arquitectura e a minha opinião é muito simples: eu nem sequer punha grades de protecção... é que se assim é então tem de se começar a por grades metálicas grossas e reforçadas nas plataformas das marinas, nas beiras das piscinas, no limiar entre a praia e o mar, em tudo o que for ravinas e penhascos, e é claro ao longo de todo o rio.. ou só aquele ponto em especial é que precisa?
começem a ver mais com os olhos e menos com o coração.. essa angustia toda não leva a lado nenhum..
joão em 1 de setembro de 2005 às 00h23
Tão poético... nunca pensei ouvir tantas bacoradas vindas de pessoas que deviam ter responsabilidades na matéria em vez de procurarem justificar o injustificável. A "estética" não é incompatível com segurança. Estas coisas só são possíveis em países subdesenvolvidos como o nosso, ou mesmo Itália.
Uma criança morre afogada em 30cm de água; há pessoas que vêem pouco ou nada para as quais as guardas não "funcionam visualmente"; mesma uma queda de pequena altura pode ser fatal...
Tretas!
seven em 1 de setembro de 2005 às 14h00
A maior parte dos comentários desta página foram escritos por pessoas que não percebem ABSOLUTAMENTE nada de arquitectura.
Pedro em 10 de novembro de 2005 às 01h03
Aposto que o autor do comentario PERIGO:ARQUITECTURA é um engenheiro com a constante mania de atacar os arquitectos.
Anonimo em 10 de novembro de 2005 às 01h13
FIQUEI ENCANTADA DE LER ESSAS MATÉRIAS QUE (EVIDENTEMENTE, NÃO LI TODAS, SÓ ALGUMAS) REFLETEM EXATAMENTE O QUE EU SINTO COM RELAÇÃO À ALGUNS TIPOS DE ARQUITETURA ! CERTAS OBRAS SÃO UM INSULTO AO SER HUMANO, COMO SE ESSA TIVESSE SIDO FEITO APENAS P/GLORIFICAR O DITO ARQUITETO E NÃO P/SER USADA, SEJA COMO MORADIA OU OUTROS FINS !
Mª EMILIA M. OLIVEIRA em 21 de abril de 2006 às 20h55
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