
Uma das crenças mais arreigadas do Modernismo foi a de unificar todas as artes pondo em pé de igualdade arquitectura, pintura e escultura, só para falar nas artes clássicas ditas “maiores”. Na sua fúria inovadora instituiu uma verdadeira revolução plástica de pendor abstracto que pretendia ser espelho da sua época e sociedade e que se tornou a sua bandeira frente a um academismo caduco. As vanguardas artísticas das primeiras décadas do século XX (Cubismo, Futurismo, Neoplasticismo, etc.) são disto exemplo.
Integrada nesta dinâmica e importando a nova linguagem plástica a arquitectura julgou poder ser também abstracta. Os edifícios passaram a ser volumes, as salas e os quartos espaços, as paredes e telhados planos, as portas e janelas aberturas; as cores deixaram de ser ditadas pelos materiais empregues e sim pela “paleta” do autor (cores puras, predominância do branco). O Funcionalismo fez disto doutrina e a tal ponto foi bem sucedido que chegou a confundir-se com o próprio Modernismo. A sua arquitectura tornou-se uma fórmula aplicada indiscriminadamente, desligada da Natureza e originando ambientes climáticos e paisagísticos agrestes para o ser humano.
Actualmente vejo uma repetição da História sem as suas lições aprendidas. Vejo com desagrado que grande parte da arquitectura contemporânea é abstracta e, por isso, agreste. São desenhos que tiveram a sorte (?) de ser construídos. Suponho que as ferramentas de desenho informático que existem actualmente contribuíram para acentuar ainda mais essa abstracção, não obstante fazerem simulações fabulosas...
Se a pintura pode ser abstracta a arquitectura deve ser concreta. As pessoas não vivem nos quadros e por isso o pintor tem liberdade para pôr o que quiser na tela. O mesmo não se passa com a arquitectura, compreensivelmente. Era bom que os arquitectos deixassem de olhar para os seus projectos como pinturas e para si próprios como artistas. A arquitectura é feita de tijolos, cimento, madeira e enraizada (em todos os sentidos) num dado local. Não é, por isso, abstracta.
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.