Poção mágica

Publicado em arquitectura por seven em 12 out 2005 09:04 AM | 3 comentários

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Existem na Natureza seres vivos noctívagos: morcegos, melgas, lobisomens, guardas nocturnos, mulheres da vida, chulos, pessoal das discotecas e arquitectos. É vê-los estes últimos, madrugada alta, nas tascas e estações de serviço abertas, a engolirem tostas mistas e a sorverem uma quantidade prodigiosa de cafés. Isto acontece porque têm trabalhos para entregar e, como o dia só tem vinte e quatro horas, trabalham de noite (?). Não seria desagradável de todo não fosse terem de continuar a trabalhar no dia seguinte.

De resto, pelo que tenho ouvido dizer, pautam-se por um intenso convívio profissional e social e são, ao contrário do que possa parecer, extremamente produtivas. Dizem-me também que, embora não haja duas directas iguais, existem invariáveis em todas as "sessões". São assim as directas dos arquitectos:

Os preparativos são fundamentais – cigarros para toda a noite, música, alguma coisa para beber. A primeira fase, até às 2h00, é fácil de vencer. É nesta altura que a fome ataca, o que se resolve bem (o cafézinho da esquina fecha a essa hora). Após duas tostas de queijo, um prego no pão, dois finos e três cafés, o pessoal está apto a continuar a noitada. Neste momento, os mais tinhosos inventam desculpas parvas para se retirarem e ficam só os bons, que prosseguem alegremente noite adentro.

A etapa seguinte é mais dura. Em primeiro lugar liga-se o rádio para distrair porque já estão todos fartos de ouvir sempre os mesmos cd's que o Chico trouxe (nome invariável). Infelizmente, os programas são todos execráveis a partir das três da manhã! E volta-se aos cd's do Chico... Nesta altura, atraiçoados por uma tão grande alteração do biorritmo, os intestinos dos mais sensíveis queixam-se, obrigando o pessoal a idas frequentes ao W.C. Há alguns que aproveitam mesmo esta ida à casinha para passar pelas brasas (uma vez encontraram o Chico a dormir enrolado no chão com a cabeça em cima de um rolo de papel higiénico – foi descoberto porque ressonava!)

Mas já são seis da manhã. É a fase derradeira e mais violenta, quando o cansaço se torna difícil de vencer e o trabalho rende menos. Nesta altura, fartos dos cd's, voltam a ligar o rádio, verificando com consternação que todas as estações estão a transmitir o boletim para a agricultura. O que vale é que o outro café abre às sete e meia. O dia nasce e o trabalho nem sequer está perto do fim...

Torna-se imperioso uma segunda directa, o que já não é para toda a gente. Muito menos a terceira, onde se vê quem são os valentes...

O episódio que me contaram passou-se, precisamente, na terceira directa consecutiva. O pessoal estava mortiço: tinham os olhos em bico e o ritmo de trabalho era muito lento. Às três da manhã tocou a campainha. O Chico foi abrir, arrastando-se até à porta. Era o Zé Manel (outro nome invariável) da sala ao lado que também estava a fazer directa. Trazia uma garrafa de bagaço lá da terra dele. "Serve para dar ânimo – uma autêntica poção mágica!", disse eufórico. Todos beberam daquilo, brindando.

E, gradualmente, operou-se uma mudança radical na sala. Num crescendo inexorável, o pessoal começou a ganhar vivacidade: uns assobiavam e cantarolavam, outros contavam anedotas; davam-se palmadas nas costas; o optimismo reinava e o moral da tropa era elevado; o trabalho, esse progredia a um ritmo esfuziante – não é que o raio da beberagem tinha mesmo estimulado?

Mas, tão subtilmente como crescera, o ritmo tornou a decair. Os assobios morreram nos lábios e o ambiente tornou-se pastoso – podiam ouvir-se as moscas por entre as nuvens do fumo do tabaco. Subitamente, um enorme estrondo! Era o Chico que se tinha estatelado no chão. Adormeceu a meio de uma linha mas continuou a desenhar até que ultrapassou a beira do estirador... Ao seu lado jazia a caneta com que desenhava, bico cravado no soalho.

O trabalho parou imediatamente e foram levá-lo ao hospital onde dormiu quarenta e oito horas seguidas. Quanto aos outros, foi cada um para sua casa de táxi, não fossem acontecer coisas mais graves...

Tudo isto é absolutamente verdadeiro. (Obrigado pela história, Manel!)

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3 comentários

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Eu acredito que seja verídica. Sou estudante de arquitetura! =P

Luna em 16 de outubro de 2005 às 03h05

Eu Confirmo! mas o maximo que já fiz foi umas 46h de pé....dormi 23h a seguir!!!

U_L_T_R_A em 1 de fevereiro de 2006 às 22h53

Subitamente existe similaridade.
...Não conheço ninguém que não estude/exerça arquitectura com tamanha capacidade de devoção ao trabalho. Na maioria das vezes, as directas dos "outros" são por motivos de maior euforia do que o stresse que pressiona e impulsiona as noites dos arquitectos.

O meu record são 5 dias sem dormir... Quase jurava que um dia havia de deixar de precisar de domir... talvez um dia.

Joana

Anonimo em 3 de maio de 2006 às 01h44







 
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