
A questão da existência de uma Arte Nova portuguesa é, no mínimo, polémica. Muitos consideram que se tratou de um fenómeno cenográfico com expressão exclusivamente na fachda e que ao nível da concepção do espaço nada de novo aconteceu. Não andarão muito longe da verdade... Mas na realidade, se excluirmos algumas obras maiores de Victor Horta, van de Velde ou Gaudi, foi isto que se passou um pouco por toda a Europa.
Portugal teve também a sua fase Arte Nova e não deixa de ser curioso que, além de Lisboa e Porto, tenha surgido com tanta expressão numa cidade provinciana como Aveiro. Entre as obras que deram tal fama à Arte Nova aveirense encontra-se a casa do major Belmonte Pessoa datada de 1904. O seu projecto é da autoria de um artista local, Francisco da Silva Rocha, e de um arquitecto com algum renome nesta época: Ernesto Korrodi. Sente-se a mão deste último no desenho das alvenarias da fachada toda em calcário - algo pouco comum na época. O interior não representava propriamente uma revolução espacial mas deve dizer-se que também não era muito comum; uma escada de ferro em caracol fazia a ligação ao primeiro andar o que igualmente era pouco comum e até arrojado; os solários atrás das janelas da fachada eram também espaços invulgares; o átrio de entrada com uma relação especial com a rua; painéis de azulejo de boa qualidade e alguns objectos importados de França (a lanterna que estava no átrio e que desapareceu) contribuiam para fazer desta casa um exemplar dos melhores.
Durante anos este edifício esteve devoluto e a degradar-se de dia para dia. Recentemente, por ocasião do seu centenário talvez, a Câmara Municipal avançou para o seu restauro. Ou devo dizer reconstrução? Ou quiçá recuperação? Não sei bem e o que me preocupa é que não sei se quem o faz - ou manda fazer! - saberá também... De igual modo ignoro qual o novo destino a dar ao edifício, embora concorde que uma habitação me pareça despropositado. Tenho receio de ver aparecer um daqueles projectos agressivos de que alguns arquitectos tanto gostam, onde dizem assumir a diferença entre o velho e o novo e onde consequentemente se introduzem estruturas modernas com demasiada presença.
Estendeu-se um véu de mistério sobre a obra. O que irá aparecer quando for levantado? Espero estar enganado...
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