Boa arquitectura

O que é boa arquitectura? Há tempos, aquando de uma visita ao Fórum Arquitectura, vi lá uma entrada com este título. O tópico pareceu-me ser interessante como aliás muitos que por lá aparecem mas cuja abordagem e discussão, infelizmente, se revelam pouco produtivas. A maioria dos comentadores quase nunca sabe expressar uma opinião e muito menos fundamentá-la. Isso não se deve apenas ao facto de não saber escrever: é porque não a tem, de facto. Imagino que os autores dos tópicos se sintam bastante frustrados...
Penso que este é um assunto que nos diz respeito a todos, cidadãos. A arquitectura diz respeito a todos e não apenas aos arquitectos que, apesar de criticarem a falta de cultura arquitectónica do país, não estão muito abertos a discuti-la com outras pessoas. Ao ler o tópico e respectivos comentários fiquei simultaneamente desiludido e esclarecido. O debate começa com uma pergunta - muito legítima! - de um arquitecto estagiário e, pela forma como a pôs, dá a entender que nunca obteve resposta ao longo do seu percurso académico, talvez porque ninguém lha soubesse dar... Agora também não, pelos vistos, a julgar pela pobreza dos comentários. Isto aflige-me particularmente porque era suposto ser a primeira coisa a ser ensinada num curso de arquitectura! Uma escola de arquitectura só pode ensinar boa arquitectura e, para isso, tem de dizer o que é a boa arquitectura.
A resposta à pergunta é simples mas para a entenderem os arquitectos têm de deixar de pensar a arquitectura como uma arte e, muito menos, elitista; têm de deixar de concebê-la em termos de forma ou espaço; têm, sobretudo, de deixar de avaliá-la por padrões estéticos.
A forma é a pele da arquitectura, aquilo que primeiro se vê e às vezes APENAS o que se vê. Quando assim é torna-se natural que a avaliação de uma obra arquitectónica seja ditada exclusivamente pela cultura estética das pessoas que, como se sabe, em Portugal é supinamente inferior à cultura futebolística... E, além disso, é muito subjectiva, ao contrário do futebol. É necessário um olhar mais demorado...
Os (verdadeiros) artistas saberão que a beleza não se procura e, portanto, não deve ser o objectivo de uma obra de arte. É ridículo, pois, procurar o que não existe senão em termos abstractos e que, por esse motivo, não pode ser fixado no concreto. A beleza é um subproduto, o resultado do modo como actuam interna e externamente as qualidades de uma obra específica. A beleza é sujeita, necessariamente, a uma avaliação estética.
Do mesmo modo a boa arquitectura não se procura, antes sendo o resultado da adequação das soluções aos problemas de partida. Uma obra de arquitectura é tanto melhor quanto mais ajustada for a resposta aos problemas que se lhe colocam e que são imensos, como os arquitectos sabem melhor que ninguém: funcionais, climáticos, estruturais, formais, psicológicos, sociais, financeiros, tecnológicos, etc., etc., etc. Porque a arquitectura é resolver problemas! E isto é avaliado pelo uso e pelo tempo. E aqui é que a Arquitectura se distancia da Arte porque esta não tem que resolver problemas: nasce apenas da vontade de o ser e é ilimitada.
Por isso é que gosto da arquitectura sem arquitecto; porque não é exuberante nem polémica; porque é ajustada; porque se baseia em valores perenes; porque não precisa de um estilo; porque é serena... a boa arquitectura é isto. É como a obra magnífica que ilustra este post (anteriormente apresentada aqui) feita sem projecto e sem arquitecto por... Fernando Távora.
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4 comentários
Parabéns pelo teu blog!
A questão que colocaste é muito pertinente!
Subscrevo as tuas afirmações!
Na minha opinião, para se fazer boa arquitectura só podemos trabalhar de uma forma, relacionando sempre o factor “CAUSA” – “EFEITO”. Só assim as opções tomadas são verdadeiramente racionais, e não o fruto de “coisas” que alojamos na nossa memória e que, depois colamos aqui ou ali, sem razão de ser, unicamente para satisfazer linguagens ou “modas” efémeras. A boa arquitectura fica, porque como tu dizes e bem, tem valores perenes.
Tentem sempre “faze-la” desta forma, só assim terá sustentação, coerência no discurso e na linguagem.
RESOLVAM PROBLEMAS!
hugo santos em 10 de fevereiro de 2006 às 15h06
Deixo aqui o meu comentário sem saber se o ainda lerás ou não, dado o meu atraso: é que apenas agora me deparei com ele.
Dado o contexto actual, devo concordar contigo: o arquitecto perde-se demasiado em formas que não compreende totalmente e fia-se no seu gosto, criando uma espécie de elitismo do gosto: quanto mais gosto, mais "profissional", o que é um erro crasso numa disciplina que é tudo menos "moda".
No entanto não posso deixar de negar o teu texto: o que dizes é mentira! A Arquitectura não é só uma arte, é a maior das artes. Tudo começa no ponto em que se divide a técnica da arte, lá para o iluminismo, os senhores engenheiros separam águas dos senhores arquitectos, e a uns é dado o valor "artístico" enquanto que aos outros é dado o valor "funcional". Hoje os senhores engenheiros desprezam os arquitectos precisamente porque desprezam os seus argumentos de estilo bastante duvidosos. No entanto, antes desta divisão, e até na idade média, havia o "mestre de obras", conhecedor um pouco de tudo, de arquitectura, de engenharia, de águas e esgotos, etc.
Esta figura medieval era a que "ordenava" as coisas, segundo uma tradição mas também segundo a sua intuição, a sua sensibilidade sobre a harmonia das relações entre as partes. A isto chama-se "composição". Não é apenas uma questão funcional! É uma questão de conseguir controlar os problemas e sintetizá-los num único "TEMA", o habitar, de acordo com o lugar onde é construída a casa, o dono da casa e a sua sociedade. A este processo de síntese, não lhe consigo dar outro nome que não ARTE, pois é uma indução que se faz, não uma dedução.
É que no século XX, meu caro amigo, fez-se exactamente aquilo que as suas palavras (e não o seu coração) pediu: o funcionalismo máximo! Para isto basta visitar a holanda e a alemanha destruída da segunda guerra mundial e reconstruída em poucos meses. O cenário é catastrófico: parece uma cidade de máquinas, não de seres vivos. Precisamente porque foi construída para "resolver problemas", e não como "CIDADE", ou seja, expressão viva de uma sociedade rica em cultura: ARTE.
Por isso, se os arquitectos hoje em dia te parecem confusos, não é sem razão. É que durante o século XX esta noção de "resolução de problemas" destruiu toda uma tradição e cultura arquitectónica, e depois de nos depararmos com o erro gravíssimo, deixou-se o arquitecto fazer mais "arte", mas agora sem o seu conhecimento. Diria que estamos de volta às cavernas, no que concerne à sensibilidade "artística" do arquitecto.
Em conclusão, digo-te que só quem nunca pegou numa caneta para "tentar" desenhar uma casa, "resolver" os problemas anunciados, corrigir as desarmonias evidentes e os problemas mal resolvidos é que pode dizer que o arquitecto não "resolve problemas".
Outras correcções:
1. Forma NÃO é pele da arquitectura. FORMA é tudo aquilo que é presente, carne e osso, músculo e veias, tudo é FORMA. Existe forma enquanto imagem, mas também enquanto sistema social, enquanto espaço, enquanto estrutura, enquanto maneira de construir. Arquitectura, assim como toda a arte, é PURA FORMATIVIDADE, que é quase o mesmo que dizer que "existe", mas mais profundo.
2. Então a Beleza não se procura? Que piada! Os (verdadeiros) artistas saberão melhor? Não concordo contigo. A Beleza não é mas é CRIADA, é apenas DESCOBERTA, quererás tu dizer, mas daí a dizer que não é "procurável"... digamos que toda a história do Homem estaria então errada. O que dizer então dos Descobrimentos, da Poesia, de toda a Arte, senão forma de expressão da busca constante da felicidade e da beleza infinitas? Essa noção do que é o Homem parece-me descabida e demasiado fácil. Fácil, porque para ti a beleza há de por sua infinita misericórdia cair em frente da tua porta de casa sem que a tenhas procurado. Quem me dera que tal fosse verdade!
3. A BOA ARQUITECTURA NÃO SE PROCURA?!? Paremos de trabalhar! Paremos de fazer seja o que for! Mesmo que fosse apenas a boa adequação de blá blá, não se deveria procurar?!?
4. A arquitectura sem arquitecto tem um nome: tradição. E dizer que ela é acerebral é acerebral em si. Fico-me por aqui. Cumprimentos.
Luis Dias em 12 de abril de 2006 às 19h03
desculpa por tar a comenta r orque um rapaz de 15 anos nao devia estar aqui... eu vi awqui parar porque tava a procura de "beleza da arquitectura "para filosofia e segundo tudo o que eri sobre estética está contra o que acabast de dicxer... ate porque o meu prof me mandou fazer um trabalho sobrte "a vida como abra de arte: as diversas manifestaçoes esteticas"
e eu considero sem duvida a arquitectura acima de tudo uma obra de arte que causa em nos uma sensação que provem da estética de determinada casa ou monumento... sendo assim os sentimentos vem da beleza que este nos ta a mostrar ou que apenas talvez alguns conseguem ver .... Estes sentimentos variam de pessoa para pessoa consuante as expriencias que estes viveram..
Obrigado.. espero que aceite este comentario...
Abraços.. e felicidades...
josé em 7 de junho de 2006 às 23h24
Agradeço a visita e o comentário. Aqui aceitamos todos os comentários desde que sejam genuínos e não meros insultos ou tomadas de posição ridículas.
Volta sempre...
seven em 7 de junho de 2006 às 23h36
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