O preço da Arquitectura #2

Publicado em arquitectura por seven em 6 jan 2006 09:01 AM | 2 comentários

060106_dinheiro.jpg

Não vale a pena falar muito na dificuldade que têm os arquitectos em cobrar os seus honorários. Esta situação não é exclusiva dos arquitectos, note-se, mas assume contornos especialmente dramáticos para quem, como muitos arquitectos, vive apenas da sua profissão. Para além de os acharem invariavelmente caros os clientes acham também que o dinheiro não lhes faz falta. E se, com os clientes particulares a situação é censurável, quando se trabalha para o Estado a coisa roça a obscenidade...

É prática comum do Estado fazer concursos públicos para atribuição de uma qualquer obra ou serviço, seja uma empreitada de construção civil de vários milhões de euros ou a compra de algumas caixas de clips. Do mesmo modo, quando se torna necessário um projecto de arquitectura para um edifício estatal, por exemplo, recorre-se ao mesmo processo. O princípio está correcto porque dá a todos a possibilidade de participar em pé de igualdade, ganhando o melhor - democrático, portanto.

Mas esta democracia apenas o é em teoria pois na prática nem sempre é a qualidade dos projectos que é avaliada. Neste país o Estado ainda pratica concursos de honorários, significando isto que os arquitectos são convidados a participar com os seus projectos e, simultaneamente, as suas propostas de honorários. Na decisão final sobre o vencedor pesa decisivamente o preço do projecto, mais do que a sua qualidade intrínseca. Como é evidente o projecto mais barato nem sempre (ou quase nunca) é o melhor...

Várias considerações se podem tecer em volta disto. Por exemplo: para quê fazer um projecto para o concurso se são os honorários que vão ditar a escolha? É assim que o Estado salvaguarda o nosso direito colectivo à qualidade? Para quê poupar algum dinheiro aqui se depois o vai esbanjar escandalosamente nas famosas derrapagens orçamentais que sempre ocorrem nas empreitadas? Um bom projecto (bem pago) não evitaria essas derrapagens?

Mas a sorte de quem ganha estes concursos nem sempre é invejável pois, por mais barato que seja o projecto, o Estado acha-o sempre caro, a julgar pelas dificuldades de pagamento. Em primeiro lugar o feliz arquitecto escolhido tem que fazer o depósito de uma caução no banco (que é para o Estado se ressarcir no caso dele resolver fugir com o projecto). Até esta altura o Estado nem um adiantamento sobre o projecto pagou... Depois as várias fases de pagamento vão sendo sucessivamente adiadas até não poder mais. O arquitecto, entretanto, vai tendo de pagar o IVA sobre as facturas que emitiu... Por fim, passado muito tempo, lá recebe o dinheiro a que tem direito. Um arquitecto meu amigo demorou NOVE ANOS a receber os seus honorários de uma autarquia. Sem comentários...

* Assine o nosso feed de RSS.
* EMAIL semanal com o melhor da semana ou EMAIL diário.

artigos relacionados

2 comentários

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

Curioso este post. Concordo na íntegra com ele. Mas há mais...muito mais.
Por um lado, o problema não está só no Estado, está também em muitos privados.
No Estado há ainda aquela modalidade fantástica dos "concursos públicos por prévia qualificação", ou seja, um gajo para poder concorrer tem de ja ter ganho uma série de concursos antes (porque é exigida uma experiência mínima de 3 ou 5 projectos de edifícios públicos ou de "dimensão relevante", que para serem feitos foram também eles alvo de outros concursos - é a chamada pescadinha de rabo na boca)
Mas quando entramos em "concursos" promovidos por entidades privadas a coisa então ainda ganha contornos mais sui generis. Participei em dois concursos desse tipo. Num deles fiquei classificado em 3º lugar, e após o conhecimento dos resultados, o promotor reuniu com os três primeiros classificados para lhes perguntar quanto é que cada um levava para continuar o projecto. Mas...e agora é que a coisa é linda... para continuar não com os projectos próprios mas com o projecto como ele achava que devia ser, porque "eu quando lancei o concurso já sabia bem o que queria fazer, mas quis ver se havia algumas ideias engraçadas"....
No outro concurso, em que fui convidado a apresentar proposta (proposta means projecto-estudo prévio AKA umas dezenas de horas de trabalho, nao apenas uma cartinha a propor honorários) o júri que ia avaliar os projectos era constituído pelo presidente da instituição promotora, um senhor de muito boa vontade, reformado do comércio, uma "dótora" que também fazia parte dos orgãos sociais da instituição, e um engenheiro da autarquia que iria pagar parte dos custos da obra....tamos conversados né?

Filipe em 6 de janeiro de 2006 às 17h07

Apenas li alguns pequenos "posts" e comentários mas digo-lhe 1 coisa: vieram-me as lágrimas aos olhos (isto é verídico)! Sinto intensamente as injustiças, os preconceitos, a incompetência, o laxismo, a ignorância e a ganância que atravessa o mundo da construção de lés-a-lés...Tenho toda a consideração pela profissão de arquitecto; é uma actividade de uma importância vital, até porque se na obra ninguém quer saber do arquitecto mas sim do engenheiro, já para os clientes passa-se um pouco o contrário: querem fazer uma obra, falam com um arquitecto e apenas com ele, assumindo que ele fará tudo o que diz respeito ao projecto. Não estou a pôr uns à frente dos outros ou a dar qualquer tipo de preferência; apenas estou a dizer que há um equilíbrio para tudo e não me parece que o exista, quer em obra quer em projecto. Sou formado em engenharia civil mas acredite quando lhe digo que desprezo tanto como voçê aquele estereotipo de engenheiro civil que apenas sabe pôr pilares e vigas de betão uns em cima dos outros, tapar tudo com tijolos e chamar àquilo um edifício. Detesto a atitude generalizada de cada um pensar apenas na sua especialidadezinha (seja ela civil, saneamento, arquitectura, AVAC, etc.) como se fosse a única coisa que importa no mundo, sem o mínimo de respeito pelo trabalho dos outros, pela coerência da obra em si e por aquilo que hoje em dia toda a gente fala mas muito pouca gente efectivamente faz, que é ter em conta as questões ambientais. Chamem-me lunático, sonhador, utópico, mas nestes últimos anos tenho vindo a estudar mais a fundo as implicações ambientais do acto de construír e a primeira conclusão a que chego é a seguinte: é muito complexo o projecto sustentável; é transversal, exige uma perfeita coordenação entre todas as especialidades e acima de tudo (já que parece que é tudo o que importa nesta sociedade de consumo) envolve sempre ou quase sempre maiores custos iniciais. Óbvio, é perfeitamente óbvio que um projecto sustentável deva custar inicialmente mais que um projecto tradicional, tipicamente do tipo usar-e-deitar-fora: ineficiente energeticamente, sem usar materiais reciclados ou recicláveis, pouco ou nada integrado bioclimaticamente, que desperdiça água, que não inclui sistemas movidos a energia renovável, etc., etc. Um projecto sustentável envolve mais estudo, mais integração, mais variedade de aspectos a serem considerados, mais um série de coisas que o projecto tradicional não faz nem quer fazer. No entanto os aspectos sustentáveis na construção podem (e devem) trazer retorno financeiro a longo prazo: poupanças em energia, água, venda de materiais para reciclagem, etc. Ou seja, resumindo, para a construção sustentável vingar ter-se-á de passar da óptica do custo inicial para o custo a longo prazo, geralmente muito menor que o custo a longo prazo de um projecto tradicional. Eis o grande busílis: convencer os clientes que ao investir mais inicialmente e num bom projecto (que se pretende o mais sustentável possível) estão de facto a poupar dinheiro no longo prazo, além de estarem a contribuír, obviamente, para a manutenção deste mundo e nao para a sua fatal destruição...

Queria por fim dar-lhe os parabéns por este blog, pela sua excelente escrita e integridade no exercício da arquitectura.

Deixo o meu contacto e o nome do projecto de empresa que estou a montar (com outros colegas engenheiros, também preocupados e revoltados com o presente estado das coisas):

André Coelho
S.U.S. - Sistemas Urbanos Sustentáveis
934189442
218878971

André Coelho em 25 de março de 2006 às 07h28







 
(obrigatório, não será mostrado no site)

seguir os comentários por email

Site Meter site statistics PHP Scripts