Os filmes da minha vida - Amadeus

Publicado em cinema por bjr em 27 jan 2006 | 1 comentário

 Cinema Milos Forman Wolfgang Amadeus Mozart Musica

A propósito dos 250 anos do nascimento de Mozart, e como já foi aflorado pelo seven, é com alguma nostalgia que recordo um dos filmes da minha vida.

Amadeus é um filme maravilhosamente triste. Amadeus é sobre frustrações. A frustração de não ser tudo aquilo que se deseja. A frustração de saber que há alguém infinitamente melhor precisamente naquilo que mais admiramos e tentamos alcançar. É sobre a frustração de ver um legado esquecido à medida que a velhice se aproxima.

Milos Forman dá-nos uma obra que é na verdade um triângulo composto por Mozart, Salieri e o divino. Mozart, possui uma capacidade divina de criar a harmonia, que de tão bela e concordante, rivaliza com a própria voz de Deus. No entanto é leviano e não possui a devoção que tal dom merece.

A personagem de Salieri foi a minha preferida. Absolutamente paradoxal e fascinante. Músico menor, julga-se negligenciado por Deus a favor de Mozart, pois possui o dom do verdadeiro amor pela música, sem no entanto possuir a capacidade para realizá-la. Tem a capacidade de reconhecer o génio de Mozart, mas Deus negou-lhe tudo o resto.

Amadeus mostra-nos os extremos sentimentais que podemos experimentar. Fascínio e repulsa, amor e ódio, sentimentos que, no fundo, se complementam.

Para mim, há duas cenas lindíssimas e verdadeiramente arrebatadoras, que expressam a sensibilidade que rodeia o filme.

No momento em que lê as partituras que lhe foram levadas pela mulher de Mozart, Salieri chora, tal a harmonia e brilhantismo da composição.

Já no seu leito de morte, Mozart dita as notas, o compasso e a letra do Requiem para um incrédulo Salieri. Este percebe o quão incapaz é de acompanhar tal génio. Não consegue sequer compreender o que lhe é dito, mas ao invés de odiar, fica maravilhado com o talento de Mozart. Só então se dá conta da verdadeira extensão do dom que Deus concedeu a Mozart. É uma cena maravilhosamente orquestrada por Forman, associada a duas estupendas actuações. A cena resume, em si, todo o filme e a ambivalência das personagens.

Amadeus é uma obra de arte realmente à altura do homem que a inspirou.

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1 comentário

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Também gostei do filme e concordo que Salieri é sua principal personagem. Mozart está por demais caricato. Mas hesitaria em dizer que Salieri foi um músico menor. Primeiro, quantas músicas de Salieri conhecemos? Eu só conheço três e apenas porque o sucesso do filme fez com que a Columbia as desencavasse do fundo do catálogo esquecido e as lançasse em disco. Depois deste, nunca mais encontrei outro à venda, fosse vinil ou CD. Assim, só posso tentar avaliar Salieri pelas notícias históricas. E elas me dizem que o italiano dominou o cenário musical vienense por pelo menos quatro décadas, ofuscando Mozart e Haydn. Também que foi Compositor da Corte e, mais tarde, diretor da Ópera imperial. Assim como foi professor de Beethoven, de Schubert e de Liszt. Quis o acaso da História que ele terminasse esquecido. Bach também ficou esquecido por muitos anos; para nossa sorte, foi redescoberto. Talvez um dia redescubram Salieri. Se o fizerem, provavelmente não receberá a classificação de gênio que distingue Mozart, Beethoven e o redescoberto Bach, ele não o foi. Mas é igualmente provável que nunca mais sejamos tentados a defini-lo como um músico menor.

João Daltro em 29 de janeiro de 2006

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