
Há algum tempo escrevi neste blog um artigo sobre as cidades portuguesas. Na altura coloquei uma série de questões que são as que vão na alma de qualquer cidadão como eu. Eram elas, se bem se lembram:
- Porque é que as pessoas trabalham numa zona da cidade e têm de viver noutra?
- Porque há tão poucas infra-estruturas urbanas nas cidades (zonas verdes, equipamentos infantis, locais de lazer, etc.)
- Porque é que ao pé das escolas não há locais de estacionamento generosos para o embarque/desembarque dos alunos à entrada e saída das aulas?
- Porque é que as nossas estradas (e cidades) estão pejadas de camiões TIR e outros quando a nossa infra-estrutura ferroviária apodrece?
- Porque é que o centro da cidade – a “zona histórica” – é tão cuidada e as periferias – as novas urbanizações, um magnífico eufemismo... – são o caos?
- Porque se constróem tantos blocos de apartamentos para depois ficarem anos “às moscas”, literalmente?
- Porque são as habitações tão caras, sabendo que o seu preço de construção é metade, um terço e até menos que o seu valor comercial? (estamos a falar de margens de lucro de 100% e mais – que outro ramo do comércio as pratica?)
- Porque são essas habitações na generalidade tão mal construídas – mal isoladas, com má exposição solar, escuras, pequenas, feias, eu sei lá que mais?
Não há uma explicação única nem simples para isto. Todavia, não faltam exemplos bons para “copiar” por essa Europa e Mundo fora... Uma metrópole, grande ou pequena, não deve ser necessariamente um inferno por oposição ao paraíso do campo, da natureza, etc., etc. Dizia há tempos alguém, com muita sabedoria e humor, que os citadinos acham o campo maravilhoso às 5 da tarde mas teriam uma ideia muito diferente dele às 5 da manhã, hora a que ali se começa a trabalhar...
Há alguns anos, durante uma visita à Polónia, conheci um holandês que, referindo-se às cidades polacas disse serem “todas iguais, sujas e feias.” É claro que ele tinha exemplos de boa qualidade na sua terra natal mas os polacos então presentes não acharam propriamente piada... Na altura pensei no mesmo em relação às cidades portuguesas e, no entanto, Portugal é bem mais alegre e luminoso do que a setentrional Polónia e mesmo do que a própria Holanda. Porque achava eu as cidades portuguesas também todas iguais sujas e feias?
A principal razão está relacionada com algumas perguntas que acima coloquei, como por exemplo o profundo divórcio entre as zonas históricas e as novas zonas de expansão urbana. Hoje em dia as zonas históricas, núcleos originários das cidades, são tratadas com grande cuidado. Justiça seja feita: ao menos reconheceu-se o seu valor! Todavia a forma como isso é feito é muito discutível e resume-se geralmente ao encerramento numa redoma, onde tudo se mantém como era dantes (fachadas sobretudo), fecham-se as ruas ao trânsito automóvel e são introduzidas funções “animadoras” (galerias de arte, serviços, apoio ao turismo, bares, esplanadas, etc.). Quase nenhuma habitação, em contrapartida.
Estas “zonas históricas” são regra geral aquilo que individualiza uma cidade e que as distingue das outras todas. Têm uma estrutura urbana muito particular e forte que não se resume apenas ao que é visível. Esta estrutura é às vezes complexa, outras vezes bem simples mas resulta sempre de uma experiência acumulada ao longo dos anos. Por isso representa a resposta mais correcta à morfologia do terreno, ao clima, aos sistemas construtivos da época, à actividade dos seus habitantes, às suas relações sociais, etc. O congelamento que acima referi não tem em conta estes factores – é, por isso, artificial. (Há quem pense que as zonas históricas possuem montes de problemas, que não se adaptam às exigências actuais e que essa é a única solução. Puro engano. Cidades altamente planeadas e construídas de raiz têm problemas ainda maiores...)
Em contrapartida já nas zonas mais periféricas sucede o oposto, como se a cidade precisasse de um "escape" dos condicionalismos rígidos da zona histórica. Nas zonas novas ou de expansão (a expressão é traiçoeira) parece que vale tudo! Então tudo é o mesmo de Norte a Sul do país... Não há nada que distinga verdadeiramente as zonas novas de qualquer das nossas cidades, salvo raras excepções. Temos os mesmos loteamentos, as mesmas tipologias habitacionais, o mesmo tipo de arruamentos, os mesmos equipamentos, os mesmos (poucos) espaços verdes, as mesmas caras tristes das pessoas, os mesmos problemas...
Será utopia pensar que isto não precisa de ser assim? Porque não se põem em evidência e se valorizam as características distintivas de cada cidade? É possível dar continuidade às “zonas históricas” nas zonas de expansão tendo em conta as solicitações do tempo presente. É possível haver um urbanismo de Lisboa, outro do Porto, outro de Aveiro, outro de Coimbra e por aí além. Para isso existe a possibilidade legal de criar regras diferentes para cada local (os chamados Planos Directores Municipais - PDM's) mas que afinal não são tão diferentes quanto isso, o que é pena, embora as coisas vão mudando aos poucos...
Que não haja equívocos. A continuidade não é mimetismo primário, não é replicar a imagem dos edifícios antigos e limitar a inovação. Um entre muitos exemplos tristemente famosos é o da Costa Nova onde apenas são permitidas casas com riscas apenas porque os palheiros antigos tinham esse aspecto. As coisas não se resumem ao mero aspecto formal... Será que quem detém o poder de conceber e executar os tais PDM's não entende o significado de ESTRUTURA e não sente a necessidade de a manter? Será que só conhecem a RUPTURA?
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