Estrutura e ruptura

Publicado em arquitectura por seven em 28 mar 2006 09:06 AM | 9 comentários

 Cidade Aveiro

Há algum tempo escrevi neste blog um artigo sobre as cidades portuguesas. Na altura coloquei uma série de questões que são as que vão na alma de qualquer cidadão como eu. Eram elas, se bem se lembram:

- Porque é que as pessoas trabalham numa zona da cidade e têm de viver noutra?
- Porque há tão poucas infra-estruturas urbanas nas cidades (zonas verdes, equipamentos infantis, locais de lazer, etc.)
- Porque é que ao pé das escolas não há locais de estacionamento generosos para o embarque/desembarque dos alunos à entrada e saída das aulas?
- Porque é que as nossas estradas (e cidades) estão pejadas de camiões TIR e outros quando a nossa infra-estrutura ferroviária apodrece?
- Porque é que o centro da cidade – a “zona histórica” – é tão cuidada e as periferias – as novas urbanizações, um magnífico eufemismo... – são o caos?
- Porque se constróem tantos blocos de apartamentos para depois ficarem anos “às moscas”, literalmente?
- Porque são as habitações tão caras, sabendo que o seu preço de construção é metade, um terço e até menos que o seu valor comercial? (estamos a falar de margens de lucro de 100% e mais – que outro ramo do comércio as pratica?)
- Porque são essas habitações na generalidade tão mal construídas – mal isoladas, com má exposição solar, escuras, pequenas, feias, eu sei lá que mais?

Não há uma explicação única nem simples para isto. Todavia, não faltam exemplos bons para “copiar” por essa Europa e Mundo fora... Uma metrópole, grande ou pequena, não deve ser necessariamente um inferno por oposição ao paraíso do campo, da natureza, etc., etc. Dizia há tempos alguém, com muita sabedoria e humor, que os citadinos acham o campo maravilhoso às 5 da tarde mas teriam uma ideia muito diferente dele às 5 da manhã, hora a que ali se começa a trabalhar...

Há alguns anos, durante uma visita à Polónia, conheci um holandês que, referindo-se às cidades polacas disse serem “todas iguais, sujas e feias.” É claro que ele tinha exemplos de boa qualidade na sua terra natal mas os polacos então presentes não acharam propriamente piada... Na altura pensei no mesmo em relação às cidades portuguesas e, no entanto, Portugal é bem mais alegre e luminoso do que a setentrional Polónia e mesmo do que a própria Holanda. Porque achava eu as cidades portuguesas também todas iguais sujas e feias?

A principal razão está relacionada com algumas perguntas que acima coloquei, como por exemplo o profundo divórcio entre as zonas históricas e as novas zonas de expansão urbana. Hoje em dia as zonas históricas, núcleos originários das cidades, são tratadas com grande cuidado. Justiça seja feita: ao menos reconheceu-se o seu valor! Todavia a forma como isso é feito é muito discutível e resume-se geralmente ao encerramento numa redoma, onde tudo se mantém como era dantes (fachadas sobretudo), fecham-se as ruas ao trânsito automóvel e são introduzidas funções “animadoras” (galerias de arte, serviços, apoio ao turismo, bares, esplanadas, etc.). Quase nenhuma habitação, em contrapartida.

Estas “zonas históricas” são regra geral aquilo que individualiza uma cidade e que as distingue das outras todas. Têm uma estrutura urbana muito particular e forte que não se resume apenas ao que é visível. Esta estrutura é às vezes complexa, outras vezes bem simples mas resulta sempre de uma experiência acumulada ao longo dos anos. Por isso representa a resposta mais correcta à morfologia do terreno, ao clima, aos sistemas construtivos da época, à actividade dos seus habitantes, às suas relações sociais, etc. O congelamento que acima referi não tem em conta estes factores – é, por isso, artificial. (Há quem pense que as zonas históricas possuem montes de problemas, que não se adaptam às exigências actuais e que essa é a única solução. Puro engano. Cidades altamente planeadas e construídas de raiz têm problemas ainda maiores...)

Em contrapartida já nas zonas mais periféricas sucede o oposto, como se a cidade precisasse de um "escape" dos condicionalismos rígidos da zona histórica. Nas zonas novas ou de expansão (a expressão é traiçoeira) parece que vale tudo! Então tudo é o mesmo de Norte a Sul do país... Não há nada que distinga verdadeiramente as zonas novas de qualquer das nossas cidades, salvo raras excepções. Temos os mesmos loteamentos, as mesmas tipologias habitacionais, o mesmo tipo de arruamentos, os mesmos equipamentos, os mesmos (poucos) espaços verdes, as mesmas caras tristes das pessoas, os mesmos problemas...

Será utopia pensar que isto não precisa de ser assim? Porque não se põem em evidência e se valorizam as características distintivas de cada cidade? É possível dar continuidade às “zonas históricas” nas zonas de expansão tendo em conta as solicitações do tempo presente. É possível haver um urbanismo de Lisboa, outro do Porto, outro de Aveiro, outro de Coimbra e por aí além. Para isso existe a possibilidade legal de criar regras diferentes para cada local (os chamados Planos Directores Municipais - PDM's) mas que afinal não são tão diferentes quanto isso, o que é pena, embora as coisas vão mudando aos poucos...

Que não haja equívocos. A continuidade não é mimetismo primário, não é replicar a imagem dos edifícios antigos e limitar a inovação. Um entre muitos exemplos tristemente famosos é o da Costa Nova onde apenas são permitidas casas com riscas apenas porque os palheiros antigos tinham esse aspecto. As coisas não se resumem ao mero aspecto formal... Será que quem detém o poder de conceber e executar os tais PDM's não entende o significado de ESTRUTURA e não sente a necessidade de a manter? Será que só conhecem a RUPTURA?

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9 comentários

Merecia um comentário mais longo e melhor estruturado, mas o que eu penso é que a escolha não deverá ser entre estrutura e ruptura... até porque a maior parte da (des)urbanização que constrói/destrói o país não é sequer de "ruptura"... é apenas o triste espelho de quem "manda"...

am em 28 de março de 2006 às 16h39

O maior de todos os problemas é a ilusão que persiste de que é mais calmo e mais barato viver na periferia. Lisboa, à noite, é a mais calma das cidades dos arredores. Quem vive e trabalha no mesmo concelho poupa uma catrefada de euros em transportes todos os anos e poupa, acima de tudo, a cabeça ao não passar metade do dia na estrada. Mais gente em Lisboa significaria menos trânsito, mais massa crítica para eventos, mais segurança, menos dormitórios superpovoados. No entanto, conheço tanta gente que acha que viver num local a trinta quilómetros de Lisboa é o suprassumo do sossego porque estão longe desse monstro que chamam "cidade", sem perceberem que é essa mesma opção que cria o monstro e não a cidade (Lisboa, neste caso) em si.

A.F. em 28 de março de 2006 às 17h43

Não achas que essas respostas podem e devem ser dadas pelos arquitectos?
Afinal o que andam eles a fazer?
Mais do mesmo?
Exigem respeito pela classe, criam uma ordem profissional, elegem como bastonária uma política experiente (confesso que gostei de algumas das suas intervenções cívicas), mas continuam a fazer as "nossas" cidades.
Se os arquitectos portugueses, salvo raras e honrosas excepções, fossem devidamente avaliados pela sua obra e pelas nossas cidades, provavelmente seriam, na sua maioria, destituídos da sua carteira profissional (têm-na? acho qu não, senão não faziam o que fazem).
Por isso eu digo: venha daí novamente um Marquês de Pombal. A baixa pombalina está aí para o provar.
À época, a baixa foi ostracizada e criticada. Hoje só lhe vêm virtudes.

Stinger em 30 de março de 2006 às 14h20

Parece-me importante lembrar que o urbanismo não é reponsabilidade dos arquitectos, mas sim dos políticos e das suas escolhas. São os políticos que elaboram os planos urbanísticos e, são os municípios que emitem oa alvarás de construção, após passarem "à lupa" a criatividade dos arquitectos, com fundamentos em que é sua (das Câmaras Municipais) responsbilidade o (bom) urbanismo que temos.

rosario marques em 2 de abril de 2006 às 18h54

Por favor!!!
Esta não.
Fazer um comentário destes é como dizer da mulher que tem um amante que a culpa não é dela, mas sim do amante.
Porque ela, coitadinha, foi obrigada a manter o amante, é controlada por ele, etc., etc..
Ou seja, o arquitecto desenha mal, mas a culpa não é dele, é do autarca (menos sério, diga-se, para manter a mesma linha de pensamento) que aprovou a construção.
Como disse, esta não, tudo menos isto.

Stinger em 3 de abril de 2006 às 16h09

Este tema dava um debate interessante e talvez volte a ele noutro post. Penso que há muitos culpados no meio disto tudo. Não nego culpas aos autarcas que são genericamente incultos na matéria; a legislação continua a ser feita por personagens surrealistas (e até corruptas); os promotores também não se livram porque são capazes de tudo para construir "urbanizações" que nem merecem tal nome; mas também conheço arquitectos/urbanistas que só sabem fazer a chapa sete seja em que local for! O loteamentozinho, as casitas geminadas ou não, uma monotonia generalizada, uma criatividade nula. Acham que uma "urbanização" do género das Villas da Ria/Taveira design (de que já se falou aqui), de qualidade execrável foi imposta pela autarquia? (até há quem diga que os seus promotores financiaram a campanha eleitoral para a presidência da Câmara...)

Que ninguém sacuda a água do capote e os arquitectos/urbanistas têm um papel que os outros todos não têm que é o de educadores. Felizmente vai-se mudando pouco a pouco...

seven em 3 de abril de 2006 às 22h34

Mas, alguém disse que o arquitecto desenha mal, e que a culpa é do autarca? O arquitecto não desenha, não tem hipótese de apresentar trabalho. Ponto final.

rosario marques em 3 de abril de 2006 às 22h39

Coitadinho!...
Não o deixam apresentar trabalho!...
Aquela "magnífica obra" apareceu por obra e graça do Espírito Santo!
Voltamos à época dos milagres.
O Sr. Arquitecto não desenha, submete-se à vontade do Sr. Autarca. Apresenta um "trabalho" por encomenda, onde predominam valores mais elevados, como por exemplo o "el contado".Quais direitos de autor quais quê, qual propriedade intelectual qual quê!!! Isso é coisa que se diga?
Importa é a maçaroca. Aliás, nem convém que conste qualquer tipo de referência que permita relacionar/identificar a obra com o seu autor.
Nunca pensei ler coisas destas.
Respeito quem não conheço, e por isso, não me vou alongar muito mais neste comentário. Porém, não posso deixar de referir que o que me apetecia realmente escrever é que alguns (ou os) arquitectos são uns vendidos.
Mas, como disse, não conheço pessoalmente a autora do comentário, merecendo por isso o meu respeito, não escrevo o que realmente me apetecia, ficando-me unicamente pelo registo.

stinger em 4 de abril de 2006 às 13h21

a tua informação ajudou-me muito num trabalho de geografia obrigado


carla em 1 de maio de 2006 às 16h54

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