
O sentido de humor é uma coisa esquisita. Nunca experimentaram aquela sensação deprimente de contarem uma anedota que acham engraçadíssima e vosso ouvinte faz um visível esforço para se rir - ou nem sequer se ri? Um horror... Isto tem algo de cultural evidentemente (um japonês não achará piada nenhuma a uma daquelas anedotas típicas portuguesas em que alguém é ridicularizado). Mas tem também algo de corporativo. Tenho reparado que há tipos de humor próprios de determinadas profissões ou grupos sociais. Os militares têm um sentido de humor esquisito (bem o senti quando andei na tropa); os empregados bancários também têm o seu; os engenheiros só se riem das piadas deles próprios; as chalaças dos informáticos só eles as entendem...
Os arquitectos também possuem sentido de humor excepto quando se trata de arquitectura e sobretudo se se tratar de uma obra sua. Aí não têm nenhum: na generalidade aceitam mal uma crítica a uma obra, um comentário mais mordaz a um projecto e culpam sempre os outros. Já presenciei a muitas situações destas. Um arquitecto meu amigo (este sim com sentido de humor) contou-me que já durante os tempos da faculdade se verificava esta situação: "eu não faço pouco do teu projecto e tu não te ris do meu". Se, porventura, ele parava ao lado de um colega a olhar para o que ele estava a desenhar ouvia logo um "O que é? O que é que tem o meu projecto?"
Não sei se isto é comum a outras profissões mas é um facto que a generalidade dos arquitectos não têm sentido de humor acerca da arquitectura. Quando muito fazem sátira da obra alheia. Isto faz-me espécie... Levam-se demasiado a sério, como se os edifícios que eles projectam tivessem todos a solenidade de um templo budista. Isto não significa que seja necessário fazerem projectos hilariantes ou ridículos como este (é o mínimo que se pode dizer):

Eu não concebo a Arte sem humor, o mesmo humor que fez com que Miguel Ângelo se auto-retratasse como uma pele sem corpo na cena do julgamento final na Capela Sistina, que levou Hitchcock a fazer uma aparição fugaz em cada um dos seus filmes, Duchamp a criar os seus Ready-mades ou Chaplin a dizer que achava graça aos seus erros... Porém muitos arquitectos (que ironicamente se julgam artistas) não têm essa capacidade. Têm certezas sobre a seriedade da sua obra e sobranceria em relação aos que não pensam o mesmo (ultimamente tenho detectado a mesma atitude nos designers). O artista tem sentido de humor como ninguém; tem dúvidas; ri-se de si próprio e não têm receio que os outros se riam também.
Como dizia Pessoa: "Ridículas as cartas de amor? Ridículo é quem nunca as escreveu." Ou como Bocage - um grande artista quanto a mim - falando desdenhosamente de si mesmo...
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.
Já conheçe a nossa newsletter semanal? Receba ao fim de semana o que melhor aqui se falou nos outros dias. Com base na popularidade dos artigos e no nosso criterio editorial, somente o melhor, ao sábado! Assine já!
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.