Arte e técnica

Publicado em arquitectura por seven em 25 mai 2006 09:00 AM | 4 comentários

 Arte Tecnica Arquitectura Projecto

Excelentes textos tornam obrigatória a leitura d'A Barriga de um Arquitecto, do Daniel Carrapa, blog que visito frequentemente e que reconheço como um dos mais interessantes da blogosfera nacional. Um magnífico artigo publicado recentemente intitulado O Arquitecto compartimentado e um conjunto de comentários não menos interessantes levou-me a reflectir e a escrever sobre a questão em causa: a complexidade de um projecto e a articulação entre a equipa multidisciplinar nele envolvida.

Não sou, obviamente, um especialista na matéria mas interesso-me por ela e esta questão mexeu comigo. A culpa da nossa paisagem construída ser de baixo nível não se deve apenas aos (maus) arquitectos, nem aos (maus) autarcas, nem a outros que tais. A culpa é de nós todos porque, como alguém disse na caixa de comentários do artigo, é mais importante o futebol ou a novela do que o espaço que habitamos. Oxalá se discutisse arquitectura ou arte em geral como se discute futebol no nosso país... Também lá deixei um comentário onde afirmava que não gostaria de ser arquitecto nos dias que correm. De facto não é fácil sê-lo e, como em todas as profissões, há os que a desempenham honradamente e os que a exercem de forma indecente.

Continuo a achar que as escolas de arquitectura não preparam os seus alunos para serem bons profissionais no presente, ou, se se quiser, num futuro muito próximo. Entendo que um profissional da arquitectura não deve ser um artista mas sim um técnico em vários domínios com uma sensibilidade estética apurada e boa formação humanística. Para ser arquitecto é necessário vocação: nem todos têm capacidade para o ser assim como nem todas as pessoas são pianistas ou malabaristas... Por este motivo considero que, neste momento, temos muitos jovens arquitectos com algumas capacidades estéticas - reconheço - mas falhos em tudo o resto.

E, voltando agora à questão central, uma das coisas que não se ensina nas faculdades de arquitectura (corrijam-me se estiver a dizer alguma asneira) é o relacionamento da arquitectura com outras áreas que actualmente são numerosas e muito exigentes. Isto corrobora o sentido do texto do Daniel Carrapa e também o que acima defendi. Em obras pequenas - moradias, etc. - esta situação é menos visível e predomina o "desenho" sobre o resto. Mas quando se trata de um grande edifício, complexo ou com exigências muito específicas, só uma equipa bem articulada de técnicos consegue singrar. Não é por acaso que os grandes projectos (m2) vêm sistematicamente de grandes gabinetes com estruturas tarimbadas no trabalho em equipa, quase sempre estrangeiras, para nosso mal...

A arquitectura portuguesa deve ser talvez uma excepção no modo de trabalharl. É, de facto, uma arquitectura compartimentada e, por isso, pobre. Seria inconcebível projectar um automóvel da mesma forma como se arquitecta no nosso país! Ou imaginam Sergio Pininfarina a desenhar um belo Ferrari e depois dar o desenho aos outros para que o construam?

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4 comentários

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Olha o meu primeiro comentário é para dizer isto: mas que porcaria de caixa de comentários que se ficamos aqui um tempo a mais faz um "refresh" automático e manda o texto ao caixote do lixo! Ora bolas, é irritante! (a minha mesa protesta)

Luis Dias em 26 de maio de 2006 às 00h39

O mal não está só na arquitectura creio eu. Existe uma educação muito pobre no que toca ao comportamento por equipas no nosso país.
Pelo menos enquanto estudante de medicina vejo pouca concordãncia entre serviços e pior, entre elementos do mesmo serviço (no hospital) bem como desentendimentos a nível do instituto.

E perdoem-me o português macarrónico de hoje.

sérgio figueiredo em 26 de maio de 2006 às 00h48

Segundo comentário:

Não concordo absolutamente nada com o que disseste.

Primeiro, é extremamente natural que à crescente complexidade de cada projecto se reflicta o crescente profissionalismo, capacidade de produção, conhecimentos especialistas e gestão organizadora dos meios dos ateliers em causa, ou seja, projectos grandes para ateliers "grandes". Isto é óbvio para qualquer meio de negócio, é óbvio na arquitectura. Não se vai pedir a um estagiário para desenhar um estádio de futebol.

Segundo, os ateliers portugueses são, ao contrário do que aqui é dito (sem qualquer base de conhecimentos) extremamente competentes e muito bem vistos no estrangeiro.

Terceiro, o arquitecto é não apenas um técnico, mas sim o "orquestrador", ou seja, a pessoa que tem a visão daquilo que deve ser feito e gerir toda uma orquestra de pessoas, especialidades e problemas de modo a gerar arquitectura. Isto é difícil, e bem o dizes, hoje em dia, quando todas as especialidades e empreiteiros tentam "chupar" dinheiro (e as culpas recaem sempre no arquitecto), e quando os donos de obra são pessoas mesquinhas sem visão nem rigor.

Quarto, o ensino do envolvimento com as outras áreas é pouco feito na escola, mas abordado, ao contrário do que dizes, e é extensivo e encorajado nos estágios que se fazem antes da "entrada" na realidade. O problema não está na miudez oftalmológica do arquitecto em não saber ou não ver como se lida com as especialidades, mas sim os tempos ridículos e patéticos (o que é o mesmo que dizer o dinheiro que se paga ao arquitecto, dada a equação tempo=dinheiro) que são dados ao arquitecto de modo a confrontar-se com todos esses problemas. O facto de os "jovens" arquitectos terem muitas qualidades "estéticas" e poucas em todas as outras prende-se mais com o facto de o ensino ser generalista (e portanto pouco especialista) e ao mesmo tempo especialista no próprio ramo do Projecto, que é uma especialidade muito subestimada, também não percebo porquê. Mas há TEMPO para aprender, e um arquitecto chega ao topo da carreira com 60-70 anos (não com 30).

Quinto, o nível de exigência de um atelier ultrapassa e muito os níveis de empreiteiros e fornecedores que temos (que tentam chupar todo o dinheiro ao por exemplo mentir descaradamente sobre os preços dos materiais ou dos trabalhos), o que explica em grande parte a enorme dificuldade das obras e o disparatado deslize financeiro de muitas obras.

Sexto, as equipas estrangeiras são por um lado muitíssimo bem vindas pela mesma razão que os ateliers portugueses são bem vindos no estrangeiro (mas que mania de antiglobalização mesquinha! Ainda viveremos no tempo do Salazar do "orgulhosamente sós"?), e quando se falam em "nomes" super-stars do estrangeiro não é pela qualidade do seu trabalho, mas sim pela sua imagem de marca que funciona como marketing. É que se fosse pela qualidade, teríamos ateliers de SOBRA em portugal.

Sétimo, a arquitectura portuguesa NÃO É excepcional em relação às outras por ser "compartimentada". Total ignorância. Todos os países sofrem estas questões. Na holanda por exemplo, ao arquitecto é negada total liberdade projectual após a entrega dos desenhos, ele foi "compartimentado" ao desenho, e assim funciona com todas as suas especialidades, em portugal ainda existe um certo saloísmo que é algo perverso, mas também bom porque aberto, permite o acerto. Mas isto era ainda uma outra conversa.

Oitavo. Quando é que se aprende que o design de um carro é completamente diferente da construção de uma arquitectura? Pininfarina tem uma oficina de carros onde trabalha. A mesma empresa faz desde o desenho à montagem final. Assim também eu! No entanto, a metodologia de trabalho é incomportável na arquitectura, devido à própria natureza do trabalho. E se tivéssemos de fazer reuniões com todas as especialidades a todas as horas que fizéssemos alterações ao projecto... não teríamos dinheiro para comer.

Abraços.

Luis Dias em 26 de maio de 2006 às 01h07

Amigo Luis: peço desculpa pelo problema que teve com a caixa de comentários mas o seu texto era realmente muito grande. Ainda bem que teimou em escrevê-lo segunda vez porque é interessante apesar de não concordar em muitas coisas com o que lá afirma.
A minha experiência como mero interessado nesta matéria (e vendo-a de fora) diz-me que não é bem assim. Olhe que conheci e conheço vários gabinetes de arquitectura e foi o que por lá vi. Provavelmente terá experiências melhores - ainda bem para si e para nós todos.

Volte sempre

seven em 28 de maio de 2006 às 00h14







 
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