Ditadura da estética

Publicado em arquitectura por seven em 12 jun 2006 12:17 PM | 2 comentários

 Arquitectura Bioclimatica Energia

Li esta semana num suplemento do jornal Expresso (link não disponível) uma série de artigos interessantes sobre arquitectura bioclimática, sustentável e outros temas relacionados. Nele uma entrevista com o bastonário da Ordem dos Engenheiros, à qual roubei o título deste post, sobre a exigência de eficiência energética dos edifícios, finalmente vertida para a legislação portuguesa. Esta questão merece o interesse de todos nós e já foi abordada neste blog mais que uma vez, aqui e aqui. As suas palavras pareceram-me extremamente sensatas e devem ser entendidas à margem de qualquer oposição (se é que existe) entre engenheiros e arquitectos.

Afirmava ele que "no princípio do século XX quando não havia electricidade a própria arquitectura portuguesa variava muito de região para região em função das características climáticas. (...) Isso foi-se perdendo e constrói-se de forma uniforme. E desde que Portugal em meados dos anos 50 começou a ter acesso à electricidade, passámos a ter a ideia de que a energia eléctrica era uma coisa barata e que podíamos facilmente comprar equipamentos para satisfazer as necessidades."

Mais à frente na entrevista falava sobre estética, o que não deixa de ser curioso, irónico e simultaneamente corajoso vindo da parte de um engenheiro. Dizia: "Basta ver edifícios de escritórios virados a Nascente ou a Sul todos envidraçados e como são utilizados. Têm os estores corridos por dentro com ar condicinado no máximo para sobeviver no Verão, as luzes acesas porque o sol não pode entrar, ou seja, tudo aqui funciona menos a racionalidade. Porque tudo é visto como uma lógica puramente estética e aquilo que eu condeno é que a nossa arquitectura em muitos aspectos, nos últimos anos, tem vindo a ser orientada pela ditadura da estética. Estética de carácter duvidoso e dizer a alguns arquitectos que o rei vai nu é algo que não se pode dizer."

Continuava: "Porque é diferente uma obra de arte, uma escultura, e um edifício de habitações ou de escritórios. Um edifício é para ser utilizado por pessoas e essa vertente não pode passar para segundo plano. O primeiro factor é saber a que fim se destina e a funcinalidade, o segundo é a durabilidade das soluções para o período de vida de 40, 50 ou 100 anos. Depois vem a energia que consome e só depois vem a estética. Satisfazendo todas estas vertentes em pleno, trata-se de um bom projecto. Muitos deles só satisfazem uma parte, o conceito estético, e são repudiados por quem os utiliza."

Atenção: isto não é funcionalismo; é apenas a verdade. Subscrevo inteiramente estas palavras.

* Assine o nosso feed de RSS.
* EMAIL semanal com o melhor da semana ou EMAIL diário.

artigos relacionados

2 comentários

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

"Para que lado dá a saída? Para dentro ou para fora do labirinto?" Infelizmente não é um comentário sobre o post acima, mas uma possível resposta, dentro muitas outras, sobre onde está a saída do labirinto. É para dentro, e não para fora, no meu entender. Vou te contar uma coisa, tu que gostas de arquitectura, ontem, à noite, eu andava por Sousse (uma cidade daqui, gosto muito) e pensava na sua arquitectura, a dado instante, uma mulher surge inesperadamente de uma janela, para mim foi um espanto e descobri que a melhor arquitectura de todas, é aquela que edifica um ser humano: é para dentro, e não para fora, que está saida de todas as nossas angústias. A minha, a tua, a do Minotauro e daqueles e daquelas que são devorados pelo tempo no labirinto da vida.

Oscar em 12 de junho de 2006 às 20h10

Sou arquitecto e concordo com quase tudo o que foi dito pelo tal senhor, menos a parte final aqui apresentada...
Um bom projecto não é aquele que segue esses passos, mas antes aquele que conjuga todas essas fases numa só... uma coisa não pode evoluir sem a outra, não podemos pensar nos materiais sem pensar na forma, da mesma maneira que não podemos pensar na energia sem pensar na função...
Tudo evolui em conjunto e nenhum desses factores pode ser deixado de lado...
Vejam exemplos de edifícios sustentáveis de Foster entre outros, em que as fachadas são de vidro, e nem por isso aquecem assim...

Há várias formas de se fazer arquitectura, umas boas, outras más... como em qualquer outra profissão...
O problema são alguns profissionais que se servem do facilitismo para projectar, e não dedicam o tempo necessário a cada projecto, da mesma forma que o problema está no cliente, que quase sempre quer o projecto para... ontem...

Dá que pensar...

Dreamer em 19 de julho de 2006 às 18h16







 
(obrigatório, não será mostrado no site)

seguir os comentários por email

Site Meter site statistics PHP Scripts