
Li esta semana num suplemento do jornal Expresso (link não disponível) uma série de artigos interessantes sobre arquitectura bioclimática, sustentável e outros temas relacionados. Nele uma entrevista com o bastonário da Ordem dos Engenheiros, à qual roubei o título deste post, sobre a exigência de eficiência energética dos edifícios, finalmente vertida para a legislação portuguesa. Esta questão merece o interesse de todos nós e já foi abordada neste blog mais que uma vez, aqui e aqui. As suas palavras pareceram-me extremamente sensatas e devem ser entendidas à margem de qualquer oposição (se é que existe) entre engenheiros e arquitectos.
Afirmava ele que "no princípio do século XX quando não havia electricidade a própria arquitectura portuguesa variava muito de região para região em função das características climáticas. (...) Isso foi-se perdendo e constrói-se de forma uniforme. E desde que Portugal em meados dos anos 50 começou a ter acesso à electricidade, passámos a ter a ideia de que a energia eléctrica era uma coisa barata e que podíamos facilmente comprar equipamentos para satisfazer as necessidades."
Mais à frente na entrevista falava sobre estética, o que não deixa de ser curioso, irónico e simultaneamente corajoso vindo da parte de um engenheiro. Dizia: "Basta ver edifícios de escritórios virados a Nascente ou a Sul todos envidraçados e como são utilizados. Têm os estores corridos por dentro com ar condicinado no máximo para sobeviver no Verão, as luzes acesas porque o sol não pode entrar, ou seja, tudo aqui funciona menos a racionalidade. Porque tudo é visto como uma lógica puramente estética e aquilo que eu condeno é que a nossa arquitectura em muitos aspectos, nos últimos anos, tem vindo a ser orientada pela ditadura da estética. Estética de carácter duvidoso e dizer a alguns arquitectos que o rei vai nu é algo que não se pode dizer."
Continuava: "Porque é diferente uma obra de arte, uma escultura, e um edifício de habitações ou de escritórios. Um edifício é para ser utilizado por pessoas e essa vertente não pode passar para segundo plano. O primeiro factor é saber a que fim se destina e a funcinalidade, o segundo é a durabilidade das soluções para o período de vida de 40, 50 ou 100 anos. Depois vem a energia que consome e só depois vem a estética. Satisfazendo todas estas vertentes em pleno, trata-se de um bom projecto. Muitos deles só satisfazem uma parte, o conceito estético, e são repudiados por quem os utiliza."
Atenção: isto não é funcionalismo; é apenas a verdade. Subscrevo inteiramente estas palavras.
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