Aquele substantivo

Publicado em artes e letras por bjr em 3 ago 2006 04:00 PM | 9 comentários

2006080300 Letras
Esta é uma redacção feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) que obteve vitória em um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.

"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador... Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador >recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa.

Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando...ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar...ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular: ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente... Era o verbo auxiliar do edifício ! Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente ! Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.

Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.”

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9 comentários

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Nossa muito criativa,e tem um domínio enorme do português genial.

Patricia em 8 de setembro de 2006 às 00h42

Criativo, divertido, perfeito. Parabéns!

Garnier em 2 de março de 2008 às 03h02

eu achei que se voces resumissem isso ficaria bem melhor
tipo que:eu por ex tava fazendo uma pesquisa e achei o topico desse site emteressante e quis entrar,quando eu ceguei e vi esse monte de coisa me desanimei
e eu aposto que num foi so eu muita gente tb
oh pensen nisso um pouquinho ok

marcela luiza em 12 de março de 2008 às 18h22

Algo assim. Desse jeito singular, se utilizando da tendência "Gramatiqueira" para se ganhar espaço com a Filosofia da Língua. Texto que certamente serve como instrumento, na construção da "sala de aula dos sonhos".( faltou o plural [dos sonhos])Falha digitação mesmo!

Um afeto, um beijo e queijo!

Caroline em 16 de março de 2008 às 06h15

Muito bom!!!!
Adorei, muito criativo, genial. Parabéns...

Leonel em 16 de setembro de 2008 às 17h00

O blog de vocês é, na minha opinião, simplesmente o melhor site na internet. Parabéns a todos que participam.

Continuem escrevendo, que eu continuarei lendo!

Maikon A. Delgado em 8 de outubro de 2008 às 15h07

Excelente texto, transpira criatividade e humor inteligente. Parabéns à autora (ainda que anônima) e ao Obvious pela divulgação.

Renato Pincelli em 8 de outubro de 2008 às 22h31

Quem sabe não seria essa a forma de estimular o estudo da língua portuguesa.
Muito criativo!
Quem é a autora?

Patricia em 10 de outubro de 2008 às 12h02

Simplesmente FENOMENAL!

Marcos Paulo de Souza em 10 de outubro de 2008 às 20h07

Perfeito!!!
Simplesmente demais!

Fabiana em 10 de outubro de 2008 às 21h58







 
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