K.I.S.S. *

Publicado em arquitectura por seven em 3 ago 2006 09:01 AM | 2 comentários

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Adolf Loos, arquitecto austríaco do início do século XX, ficou na história não tanto pelas suas obras como pelos seus escritos. Ornamento e delito, o mais famoso de todos, foi também o mais mal interpetado e deturpado pelos fanáticos do Funcionalismo. Loos nunca condenou o ornamento em si mas sim a sua utilização epidérmica e desligada da realidade funcional e construtiva dos edifícios - e isto porque achava que uma obra arquitectónica não se esgotava na forma e que, consequentemente, a sua "morte" viesse com o virar da moda. Já muita tinta correu sobre isto e, cem anos passados e dados os descontos devidos, o equívoco devia estar desfeito na mente dos arquitectos. Infelizmente na prática corrente actual não é isso que se verifica...

Mas não é sobre isto que me queria debruçar hoje. Creio que era também Adolf Loos que dizia que um edifício é tanto melhor quanto mais fácil for de ser explicado. Esta afirmação, que se enquadra perfeitamente no restante discurso do arquitecto austríaco, parece, hoje em dia, paradoxal e contraditória. Já uma vez me referi aqui a isso. Com efeito, ao olhamos para edifícios recentes de aspecto bastante simples, quase minimalista, não conseguimos identificá-los com a verborreia que o seu autor usa para os descrever. Não seria lógico que um edifício simples fosse explicado de uma forma também ela simples? Não acham os arquitectos minimalistas a simplicidade uma qualidade em todos os aspectos?

Houve quem, na profissão, não achasse, como é o caso de Robert Venturi, que defendia a complexidade da obra arquitectónica no seu livro Complexidade e contradição em arquitectura, amplamente justificada pelos exemplos históricos que apontava. Se o livro é interessante já o mesmo não acho da obra deste arquitecto, embora coerente. Mas é paradoxal - e pedagógica! - a forma simples como Venturi fala de complexidade... De qualquer modo não é isso que está em causa - se a arquitectura deve ser simples ou complexa: é a articulação entre a obra e o discurso que a suporta.

E não me venham com argumentos do tipo "é simples na forma mas complexa no conteúdo e nas relações que estabelece"! Se se conseguiu sintetizar a obra, limpá-la, o mesmo deve acontecer com o discurso. Uma sala com vista para o mar é uma sala com vista para o mar e uma retrete é uma retrete. Se o discurso não consegue ser simples então duas coisas podem suceder: a) ou o arquitecto não encontra justificação plausível para a sua obra, ou seja, não sabe porque a fez assim; b) ou a dificuldade que tem em falar/escrever é a mesma que tem em arquitectar. Faz-me lembrar alguns críticos de arte que vêem coisas que mais ninguém vê; só não vêem o Obvious...

* Acrónimo para Keep it simple, stupid!

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2 comentários

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Sim e não!
As obras do Loos e do Venturi, são a melhor expressão das suas ideias.
As obras menos entusiasmantes do que a teoria? Que ideia! Eu pelo menos não posso estar mais em desacordo.
(Parêntesis, para colocar a hipótese da “proximidade” entre a obra destes dois arquitectos, aparentemente tão diferentes… da “complexidade” do Raumplan Loosiano, à defesa Venturiana, da “arquitectura genérica”...)
E depois... há discursos herméticos, complexos, de leitura exigente, mas compreensíveis, e há os outros, igualmente herméticos, etc., mas totalmente incompreensíveis.
K.I.S.S.? Parece-me bem... mas olha que em nome da "simplicidade", da "pureza" da simplicidade, já se cometeram as maiores atrocidades!
Só mais uma nota. Felizmente ou infelizmente (felizmente, penso), não existe nenhuma relação “causa-efeito” entre a “dificuldade” de falar/escrever e a dificuldade em “arquitectar” (veja-se o Aalto, vejam-se tantos outros... de entre os melhores) são apenas formas diferentes de pensar... mas isso já vocês sabem :)

am em 3 de agosto de 2006 às 17h06

Parece-me que estamos aqui a dizer a mesma coisa por palavras diferentes... As obras (teoricamente) não devem ser inferiores à teoria subjacente. Le Corbusier é um caso paradigmático.
Subscrevo absolutamente que as maiores atrocidades têm sido cometidas em nome da "simplicidade", pureza ou lá o que seja. E nestes casos lá surge fatalmente o discurso hermético...
Não estou contra nenhum tipo de arquitectura em especial mas sim contra a falácia travestida em discurso que muitos arquitectos utilizadores acríticos de "receitas" praticam, ok?

seven em 3 de agosto de 2006 às 23h59







 
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