
Adolf Loos, arquitecto austríaco do início do século XX, ficou na história não tanto pelas suas obras como pelos seus escritos. Ornamento e delito, o mais famoso de todos, foi também o mais mal interpetado e deturpado pelos fanáticos do Funcionalismo. Loos nunca condenou o ornamento em si mas sim a sua utilização epidérmica e desligada da realidade funcional e construtiva dos edifícios - e isto porque achava que uma obra arquitectónica não se esgotava na forma e que, consequentemente, a sua "morte" viesse com o virar da moda. Já muita tinta correu sobre isto e, cem anos passados e dados os descontos devidos, o equívoco devia estar desfeito na mente dos arquitectos. Infelizmente na prática corrente actual não é isso que se verifica...
Mas não é sobre isto que me queria debruçar hoje. Creio que era também Adolf Loos que dizia que um edifício é tanto melhor quanto mais fácil for de ser explicado. Esta afirmação, que se enquadra perfeitamente no restante discurso do arquitecto austríaco, parece, hoje em dia, paradoxal e contraditória. Já uma vez me referi aqui a isso. Com efeito, ao olhamos para edifícios recentes de aspecto bastante simples, quase minimalista, não conseguimos identificá-los com a verborreia que o seu autor usa para os descrever. Não seria lógico que um edifício simples fosse explicado de uma forma também ela simples? Não acham os arquitectos minimalistas a simplicidade uma qualidade em todos os aspectos?
Houve quem, na profissão, não achasse, como é o caso de Robert Venturi, que defendia a complexidade da obra arquitectónica no seu livro Complexidade e contradição em arquitectura, amplamente justificada pelos exemplos históricos que apontava. Se o livro é interessante já o mesmo não acho da obra deste arquitecto, embora coerente. Mas é paradoxal - e pedagógica! - a forma simples como Venturi fala de complexidade... De qualquer modo não é isso que está em causa - se a arquitectura deve ser simples ou complexa: é a articulação entre a obra e o discurso que a suporta.
E não me venham com argumentos do tipo "é simples na forma mas complexa no conteúdo e nas relações que estabelece"! Se se conseguiu sintetizar a obra, limpá-la, o mesmo deve acontecer com o discurso. Uma sala com vista para o mar é uma sala com vista para o mar e uma retrete é uma retrete. Se o discurso não consegue ser simples então duas coisas podem suceder: a) ou o arquitecto não encontra justificação plausível para a sua obra, ou seja, não sabe porque a fez assim; b) ou a dificuldade que tem em falar/escrever é a mesma que tem em arquitectar. Faz-me lembrar alguns críticos de arte que vêem coisas que mais ninguém vê; só não vêem o Obvious...
* Acrónimo para Keep it simple, stupid!
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