
Um velho amigo meu da província, um certo Leonardo, nascido numa aldeia ao pé de Florença - Vinci (código postal 50059) - era um homem muito curioso. Passava horas a observar as plantas e depois desenhava-as. Tirava notas de tudo o que ia compreendendo da maneira como as plantas se ramificam e de outras coisas do género. (...) Este Leonardo sabia muitas coisas, não só sobre as plantas não só sobre as plantas mas sobre tudo o que o rodeava. Ou melhor, até inventava coisas que não lhe estavam próximas, como, por exemplo, o helicóptero, sabia como desviar um rio, como funcionavam os órgãos do corpo humano e também sabia pintar - um quadro seu, pequeno mas famoso, está num grande museu de Paris.
Bruno Munari
Parece fácil desenhar uma árvore, não é? Todos já o fizemos alguma vez, de certeza, embora o resultado final estivesse longe de poder ser considerado uma obra de arte... Na verdade não é nada fácil. Conta-se que o primeiro exercício que o pintor António Quadros costumava dar aos seus alunos era precisamente desenhar uma árvore. Não o fazia por acaso. Sabia que todo o raciocínio plástico, capacidade de observação, síntese e destreza manual se revelavam naquele exercício aparentemente tão simples. Meia dúzia de riscos apenas. Na forma de uma árvore está o casamento perfeito entre simplicidade e complexidade.
O que de tão extraordinário descobriu o amigo Leonardo? Apenas isto: a regra de crescimento comum a todas as árvores que constitui a essencia da sua forma. Cada ramo é sempre mais fino do que o ramo que o precede e, começando no tronco, a árvore pode ramificar-se de várias maneiras, dividindo-se em dois, três ou mais ramos. Depois a espécie, o sítio, a temperatura, o vento, etc. fazem o resto mas a estrutura é sempre a mesma. Este foi o esquema que fez com a divisão em apenas dois ramos:

Imaginemos agora a variação do vento:

O mesmo esquema pode variar no comprimento dos vários estratos: o tronco comprido, os segundos ramos curtos; o tronco comprido e todos os ramos curtos; o tronco curto e os ramos compridos, etc.

Se em vez de utilizarmos linhas rectas desenharmos curvas a estrutura continua a manter-se. As variações são infinitas. Parece tudo tão simples mas primeiro foi preciso olhar com olhos de ver...


Na arte oriental uma particular atenção é dada ao desenho do mundo vegetal. A sua imensa variedade é respeitada e sintetizada em traços simples e condensados de extraordinária elegância. É preciso imensa prática e persistência para dominar esta habilidade e tudo começa por compreender o objecto que se desenha. O treino inicia-se com o desenho de um simples bambu. Toda a sua estrutura e formas devem ser perfeitamente compreendidas nas suas múltiplas variantes. O mesmo se passará com a cerejeira Sakura, com a ameixoeira ou o pinheiro. Foi justamente o que fez esse tal Leonardo porque sabia ser aquele método a essência do desenho e da arte. Desenhar uma árvore é uma arte.




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