
Templo em Agrigento, por Nicolas Houel
Voyage pitoresque des Isles de Sicile, de Malte et de Lipari (1782-1789)
Este post é pessoal e representa uma dívida que tenho para com um dos nossos leitores habituais. Quando aqui há tempos me referi ao Parténon como a materialização suprema das teorias Pitagóricas no objecto arquitectónico de eleição dos gregos - o templo -, reneguei a sua origem no Mégaron micénico que, como o nosso distinto leitor apontou, tem sido a hipótese dada como mais provável. Indignado, o homem escreveu na caixa de comentários: Não tem nada a ver com o mégaron? Teoria romântica? Fónix! E eu que aprendi com a saudosa Mª Helena Rocha Pereira, mais o seu discípulo já catedrático, J. Ribeiro Ferreiro, nas páginas do Robertson que o mégaron micénico estava na origem da planta do templo grego. Devo-lhe portanto uma explicação e, por isso, digo que este post é pessoal.
Em primeiro lugar umas generalidades em jeito de introdução. A História não tem história. É uma disciplina recente que surgiu como tantas outras no século XIX em pleno Romantismo. Muitas das teorias que então propôs foram forjadas a martelo para explicar de forma simplista um certo número de factos e, além disso, eram baseadas em dados científicos pouco rigorosos. Quem conhece as gravuras dos pesquisadores oitocentistas, como é o caso da que é apresentada acima, vê ali mais lirismo do que objectividade... A própria compartimentação cronológica em épocas, períodos ou estilos não é mais que um comodismo operativo bastante redutor, diga-se. As coisas não são assim.
Com o tempo a disciplina foi-se refinando e suprimindo teorias fantasiosas por outras mais sustentadas. Todavia, não se sabe bem porquê, algumas persistem ainda até ao absurdo quando já há factos que as põem claramente em causa. É o caso das pirâmides do Egipto terem sido feitas por escravos exclusivamente a força braçal ou desta, que vê no Mégaron a origem do templo grego. Passemos então a um discurso mais especializado e também um pouco extenso. Não são obrigados a ler. :)
Há alguns mitos que é necessário esclarecer à partida. Um deles é a da busca da beleza pela beleza, que é coisa dos Modernos; outra é a do olhar excessivamente centrado na forma, um pouco decorrente do anterior. Na verdade, desde a Antiguidade que nunca a beleza esteve dependente da forma e sim do significado. Se nos cingirmos à arquitectura veremos que as primeiras obras eram feitas com materiais perecíveis, como a madeira, o que aconteceu até a evolução tecnológica permitir trabalhar materiais duradouros, como a pedra. Este salto ocorreu na época dos metais, logicamente, com a possibilidade de criar novos tipos de ferramentas. Chamamos a este processo o da petrificação da arquitectura, ou melhor, das formas arquitectónicas.
O que é curioso e, simultaneamente, sintomático é que a mudança de material não acarretou a correspondente evolução formal, como seria lógico, uma vez que novas possibilidades construtivas se abriram então. As formas foram mantidas e a razão - bem prosaica - foi porque possuiam um significado. Verificou-se isto um pouco por todo o Mundo Antigo: na arquitectura megalítica, no Egipto, na Grécia... O sistema construtivo porticado baseado em colunas e arquitraves permaneceu apesar de já ser utilizado o arco em edifícios de tijolo. Estas reminiscências perduraram também nos motivos ornamentais, frequentemente de inspiração vegetalista e reveladoras do trabalho das ferramentas na superfície da madeira - caso das caneluras nos fustes ou das volutas nos capiteis.
Falemos agora concretamente no templo grego. Tipologicamente é bastante simples: consta de um núcleo central - a cella - rodeado por uma colunata períptera com uma cobertura de duas águas terminada em triângulo - o frontão. Há, no entanto variações a este esquema essencial. Parece efectivamente existir uma semelhança formal entre o Mégaron micénico e alguns tipos do templo grego, semelhança esta que pareceu aos historiadores mais do que uma mera coincidência. Daí a ser promovida a teoria foi um pequeno passo... Mas, bem vistas as coisas, a tão famosa semelhança tipológica deriva tão somente da utilização do mesmo sistema construtivo e apenas isso. Não há qualquer relação simbólica ou funcional entre os dois objectos: o primeiro era a sala do trono dos palácios micénicos e o segundo um local de culto. E ficamos por aqui. Convém não esquecer também o enorme hiato civilizacional entre Micenas e a Grécia Antiga, conhecida como "Idade das Trevas", pelo que é difícil aceitar que tal tradição permanacesse incólume após esta travessia de centenas de anos.

Há outra teoria que parece muito mais consistente. No território grego há vestígios de antigas construções em madeira erigidas no meio de bosques e florestas. O que seriam? Sabemos que algumas árvores tinham um significado sagrado para os gregos (e não só) - o caso do carvalho, do loureiro, da oliveira, etc. Não é difícil inferir que os bosques constituídos por estes espécimes vegetais teriam algo de místico e poderiam até servir de local para rituais religiosos. Lembremo-nos dos cultos agrários, em particular às árvores, referidas em alguns textos antigos. Neste quadro poderemos também supor aí a existência de construções destinadas a tais rituais. Estaria aqui a origem do templo grego?
Vejamos agora os aspectos formais. A imagem abaixo, baseada numa escavação arquelógica iniciada em 1980 em Lefkandi, na ilha de Eubeia, representa um edifício que aparentemente seria um santuário funerário. A sua estrutura é constituída por um núcleo central fechado rodeado por uma colunata perimetral. O espaço central está subdividido e parecer conter uma espécie de antecâmara e um opistódomo na parte oposta. A colunata axial seria destinada a suportar o frechal da estrutura da cobertura em madeira e colmo, provavelmente.

Outra escavação em Termos, na Etólia, revelou a existência de três santuários em três estratos diferentes que, para melhor compreensão, se isolaram em imagens separadas. Na primeira vemos supostamente um templo primitivo já com a compartimentação tripartida e construído com materiais perecíveis - paredes de barro amassado com palha; o segundo templo apresenta igualmente uma planta tripartida mas de forma rectangular rodeada por uma colunata perimetral; no último estrato encontramos o templo de Apolo e Mégara, com uma forma já muito parecida com os templos arcaicos.

Note-se que as colunatas não são uma criação exclusiva dos gregos. Já os egípcios, os hebreus e os hititas as usavam nas chamadas "salas hipóstilas". Mas a sua utilização perimetral em torno de um edifício parece ser uma criação original grega. Resta a explicação: se é lógico ter uma colunata sobre a zona da entrada, qual o sentido de ter um pórtico a rodear um compartimento fechado, sem acesso? O sentido seria então o de equiparar o templo a um bosque sagrado através de uma analogia formal e semântica.
Varrão em De Língua Latina , VII, 9, descreve a inauguração de um santuário acentuando que o templo é um espaço limitado por árvores. O santuário era pois demarcado simbolicamente pelas árvores do bosque sagrado. A colunata períptera seria então a reminiscência desta floresta primacial onde residia o espírito divino e a sacralidade. Quando se dá a petrificação destas estruturas, primeiro em blocos de tufo, depois em mármore, a forma mantém-se, pois reveste-se daquela significação profunda, e acompanhará sempre o templo mesmo depois de ter deixado os bosques sagrados para ocupar as acrópoles das cidades...
Bibliografia:
Demargne, Pierre - Naissance de l'art grec, L'Univers des formes, Paris, 1974
Martin, Roland e outros - Grèce archaique, L'Univers des formes, Paris, 1968
Popham, M. R. e outros - Lefkandi II, The protogeometric Building at Toumba, Atenas, 1993
Stierlin, Henri - A Grécia de Micenas ao Pártenon, Taschen, Colónia 1998
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