Origens controversas

Publicado em arquitectura por seven em 8 set 2006 09:06 AM | 3 comentários

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Templo em Agrigento, por Nicolas Houel
Voyage pitoresque des Isles de Sicile, de Malte et de Lipari (1782-1789)


Este post é pessoal e representa uma dívida que tenho para com um dos nossos leitores habituais. Quando aqui há tempos me referi ao Parténon como a materialização suprema das teorias Pitagóricas no objecto arquitectónico de eleição dos gregos - o templo -, reneguei a sua origem no Mégaron micénico que, como o nosso distinto leitor apontou, tem sido a hipótese dada como mais provável. Indignado, o homem escreveu na caixa de comentários: Não tem nada a ver com o mégaron? Teoria romântica? Fónix! E eu que aprendi com a saudosa Mª Helena Rocha Pereira, mais o seu discípulo já catedrático, J. Ribeiro Ferreiro, nas páginas do Robertson que o mégaron micénico estava na origem da planta do templo grego. Devo-lhe portanto uma explicação e, por isso, digo que este post é pessoal.

Em primeiro lugar umas generalidades em jeito de introdução. A História não tem história. É uma disciplina recente que surgiu como tantas outras no século XIX em pleno Romantismo. Muitas das teorias que então propôs foram forjadas a martelo para explicar de forma simplista um certo número de factos e, além disso, eram baseadas em dados científicos pouco rigorosos. Quem conhece as gravuras dos pesquisadores oitocentistas, como é o caso da que é apresentada acima, vê ali mais lirismo do que objectividade... A própria compartimentação cronológica em épocas, períodos ou estilos não é mais que um comodismo operativo bastante redutor, diga-se. As coisas não são assim.

Com o tempo a disciplina foi-se refinando e suprimindo teorias fantasiosas por outras mais sustentadas. Todavia, não se sabe bem porquê, algumas persistem ainda até ao absurdo quando já há factos que as põem claramente em causa. É o caso das pirâmides do Egipto terem sido feitas por escravos exclusivamente a força braçal ou desta, que vê no Mégaron a origem do templo grego. Passemos então a um discurso mais especializado e também um pouco extenso. Não são obrigados a ler. :)

Há alguns mitos que é necessário esclarecer à partida. Um deles é a da busca da beleza pela beleza, que é coisa dos Modernos; outra é a do olhar excessivamente centrado na forma, um pouco decorrente do anterior. Na verdade, desde a Antiguidade que nunca a beleza esteve dependente da forma e sim do significado. Se nos cingirmos à arquitectura veremos que as primeiras obras eram feitas com materiais perecíveis, como a madeira, o que aconteceu até a evolução tecnológica permitir trabalhar materiais duradouros, como a pedra. Este salto ocorreu na época dos metais, logicamente, com a possibilidade de criar novos tipos de ferramentas. Chamamos a este processo o da petrificação da arquitectura, ou melhor, das formas arquitectónicas.

O que é curioso e, simultaneamente, sintomático é que a mudança de material não acarretou a correspondente evolução formal, como seria lógico, uma vez que novas possibilidades construtivas se abriram então. As formas foram mantidas e a razão - bem prosaica - foi porque possuiam um significado. Verificou-se isto um pouco por todo o Mundo Antigo: na arquitectura megalítica, no Egipto, na Grécia... O sistema construtivo porticado baseado em colunas e arquitraves permaneceu apesar de já ser utilizado o arco em edifícios de tijolo. Estas reminiscências perduraram também nos motivos ornamentais, frequentemente de inspiração vegetalista e reveladoras do trabalho das ferramentas na superfície da madeira - caso das caneluras nos fustes ou das volutas nos capiteis.

Falemos agora concretamente no templo grego. Tipologicamente é bastante simples: consta de um núcleo central - a cella - rodeado por uma colunata períptera com uma cobertura de duas águas terminada em triângulo - o frontão. Há, no entanto variações a este esquema essencial. Parece efectivamente existir uma semelhança formal entre o Mégaron micénico e alguns tipos do templo grego, semelhança esta que pareceu aos historiadores mais do que uma mera coincidência. Daí a ser promovida a teoria foi um pequeno passo... Mas, bem vistas as coisas, a tão famosa semelhança tipológica deriva tão somente da utilização do mesmo sistema construtivo e apenas isso. Não há qualquer relação simbólica ou funcional entre os dois objectos: o primeiro era a sala do trono dos palácios micénicos e o segundo um local de culto. E ficamos por aqui. Convém não esquecer também o enorme hiato civilizacional entre Micenas e a Grécia Antiga, conhecida como "Idade das Trevas", pelo que é difícil aceitar que tal tradição permanacesse incólume após esta travessia de centenas de anos.

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Há outra teoria que parece muito mais consistente. No território grego há vestígios de antigas construções em madeira erigidas no meio de bosques e florestas. O que seriam? Sabemos que algumas árvores tinham um significado sagrado para os gregos (e não só) - o caso do carvalho, do loureiro, da oliveira, etc. Não é difícil inferir que os bosques constituídos por estes espécimes vegetais teriam algo de místico e poderiam até servir de local para rituais religiosos. Lembremo-nos dos cultos agrários, em particular às árvores, referidas em alguns textos antigos. Neste quadro poderemos também supor aí a existência de construções destinadas a tais rituais. Estaria aqui a origem do templo grego?

Vejamos agora os aspectos formais. A imagem abaixo, baseada numa escavação arquelógica iniciada em 1980 em Lefkandi, na ilha de Eubeia, representa um edifício que aparentemente seria um santuário funerário. A sua estrutura é constituída por um núcleo central fechado rodeado por uma colunata perimetral. O espaço central está subdividido e parecer conter uma espécie de antecâmara e um opistódomo na parte oposta. A colunata axial seria destinada a suportar o frechal da estrutura da cobertura em madeira e colmo, provavelmente.

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Outra escavação em Termos, na Etólia, revelou a existência de três santuários em três estratos diferentes que, para melhor compreensão, se isolaram em imagens separadas. Na primeira vemos supostamente um templo primitivo já com a compartimentação tripartida e construído com materiais perecíveis - paredes de barro amassado com palha; o segundo templo apresenta igualmente uma planta tripartida mas de forma rectangular rodeada por uma colunata perimetral; no último estrato encontramos o templo de Apolo e Mégara, com uma forma já muito parecida com os templos arcaicos.

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Note-se que as colunatas não são uma criação exclusiva dos gregos. Já os egípcios, os hebreus e os hititas as usavam nas chamadas "salas hipóstilas". Mas a sua utilização perimetral em torno de um edifício parece ser uma criação original grega. Resta a explicação: se é lógico ter uma colunata sobre a zona da entrada, qual o sentido de ter um pórtico a rodear um compartimento fechado, sem acesso? O sentido seria então o de equiparar o templo a um bosque sagrado através de uma analogia formal e semântica.

Varrão em De Língua Latina , VII, 9, descreve a inauguração de um santuário acentuando que o templo é um espaço limitado por árvores. O santuário era pois demarcado simbolicamente pelas árvores do bosque sagrado. A colunata períptera seria então a reminiscência desta floresta primacial onde residia o espírito divino e a sacralidade. Quando se dá a petrificação destas estruturas, primeiro em blocos de tufo, depois em mármore, a forma mantém-se, pois reveste-se daquela significação profunda, e acompanhará sempre o templo mesmo depois de ter deixado os bosques sagrados para ocupar as acrópoles das cidades...

Bibliografia:

Demargne, Pierre - Naissance de l'art grec, L'Univers des formes, Paris, 1974
Martin, Roland e outros - Grèce archaique, L'Univers des formes, Paris, 1968
Popham, M. R. e outros - Lefkandi II, The protogeometric Building at Toumba, Atenas, 1993
Stierlin, Henri - A Grécia de Micenas ao Pártenon, Taschen, Colónia 1998

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3 comentários

Thanks, seven. Estou gratíssimo. Estou agora de passagem no intervalo de almoço. Saio à noite e o fim-de-semana vou para fora onde não tenho net. Mas 2ª-feira vou ler com muita atenção e comentar. Obrigado. Bom f-d-s.

Piçágoras em 8 de setembro de 2006 às 13h42

Agradeço-te o post. Realmente, lembro-me de haver estudado, e confirmei-o em livros muito recentes, com Maria Helena Rocha Pereira e José Ribeiro Ferreira, que o megáron miçénico estava na origem do templo grego. É certo que ambos ressalvam a hipótese de o assunto ser nebuloso e polémico, mas afirmam-no como hipótese aceitável. Como não é matéria que tenha persistido nas minhas preocupalções, fui persistindo nessa ideia. Até porque, o facto torna-se cómodo para sustentar a ideia da domesticidade na origem do templo grego, ainda que palaciana. Tal é compaginável com a reiteração da escala humana do templo, por oposição, por exemplo, à monumentalidae faraónica. A polis estaria também para o templo de escala humana, como o Império para o Coliseu, p. ex. Ou ainda a humanização dos deuses gregos vs. a divinização dos cgefes políticos noutras culturas. A verdade é outra. Ou pode ser outra, como mostras. Com a vantagem de apresentar fundamento arqueológico, bem recente. Por outro lado, ainda que pouco helénica, a ideia de que o templo é uma petrificação da floresta é fascinante.

Piçágoras em 10 de setembro de 2006 às 22h38

Estou fazendo um trabalho sobre a arquitetura grega e essas informações vieram na hora certa. Achei o isso pesquisando na internet. Obrigado.

Luíz Fabiano Rego em 12 de setembro de 2006 às 14h27

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