
Quando foi inaugurada em 1959 a Lota de Aveiro era um garboso edifício modernista. Um modernismo à portuguesa, bem entendido, misto de Art Déco com International Style e Português Suave... Nessa altura muitos arquitectos ainda acreditavam nas virtudes do Moderno e naquilo que simbolizava. O Estado Novo, por seu lado, não tinha uma opinião formada sobre isso embora não escondesse a sua predilecção por edifícos embrulhados em papel nacionalista, fosse ele Neo-Joanino, popularucho ou uma mistura de ambos. Alguns arquitectos abraçaram convictamente este "estilo", como Cristino da Silva ou Cotinelli Telmo; outros mantiveram-se fieis ao Modernismo mais duro, como Viana de Lima ou Cassiano Branco.
Este edifício é bem representativo dessa época de hesitações. Como ele muitos outros existentes por esse país fora que têm o azar de não serem ainda suficientemente antigos para serem considerados património porque, por ignorância certamente, por cá se confunde antigo com qualidade e se é incapaz encontrar virtudes no que é novo. Digamos caricatamente que nada com menos de 100 anos é digno do carimbo de Património... E, no entanto, o século XX foi pródigo em boa arquitectura, tantas vezes anónima, competente e significativa, como ainda há pouco tempo aqui mostrei mas que, infelizmente não possui o carimbo mágico...
Assim vai envelhecendo tristemente o Novo, depressa demais, pagando o preço das suas ousadias construtivas (casas sem telhado, parede finas, grandes envidraçados...) e da sua juventude. Quando por fim se tornar suficientemente velho para ser considerado antigo - coisas diferentes - e merecer distinção patrimonial já só restarão ruínas. Então, como no conjunto da Lota de Aveiro, não haverá sequer Polis que nos valha...






Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.