Da embriaguez

Publicado em artes e letras por seven em 12 nov 2006 09:00 AM | 2 comentários

 Poesia Baudelaire Spleen Paris Embriaguez Pissaro
Boulevard Montmartre - Noite, Camille Pissaro

Domingo é dia de spleen, tristeza, melancolia... Não sei quais os domingos mais melancólicos, se os cinzentos e chuvosos se os solarengos. Dias inúteis, próprios para vegetar; dias de ir à bola, de passear com a família ou de ficar em casa; dias de embriaguez... É uma sensação que me persegue desde criança. Talvez por isso ao domingo os meus artigos tenham frequentemente este tom sorumbático. Em tempos coloquei aqui "Domingo" de Manuel da Fonseca, um texto triste e belo.

Hoje deixo-vos com "Enivrez-vous", um dos poemas em prosa que Charles Baudelaire publicou em 1864 sob o título genérico de Spleen de Paris. Escolhi para os ilustrar duas magníficas pinturas de Pissaro, certamente feitas a um domingo. A embriaguez é a única saída...

 Poesia Baudelaire Spleen Paris Embriaguez Pissaro
Boulevard Montmartre - Chuva, Camille Pissaro

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve. Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.

Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront:

"Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise."

(É preciso estar sempre embriagado. Apenas isso, mais nada. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos dobra para o chão, é preciso que vos embriagueis sem tréguas. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.

E se alguma vez, nos salões de um palácio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão:

"São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.")

Enivrez-vous, Charles Baudelaire

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2 comentários

Diz-se que os dias de inverno, cinzentos e melancólicos, trazem também alívio, pois podemos dar-nos ao luxo de estar tristes. Não há aquela pressão intrinseca a um dia bonito... que por estar tão belo, não permite outro estado de espírito...

BJr em 12 de novembro de 2006 às 21h52

lindos quadros... Adoro o inverno... Adoro o frio e quando e representado na arte de todas as forma.
Belo site. Meus parabens.

aurea em 23 de janeiro de 2008 às 22h28

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