
Esta questão - ou melhor, dialéctica - entre o antigo e o novo sempre atormentou os arquitectos quando chamados a intervir num edifício ou área histórica. É como se existisse um rótulo com a expressão Perigo: História. Manusear com cuidado! E, de facto, é preciso esse cuidado. De um modo geral são extremamente inseguros neste domínio e oscilam quase sempre entre a intervenção tímida/patética e a intervenção intrusiva/contrastante. Esta última tem predominado nos tempos que correm e não raras vezes é irreversível e feita de ânimo leve, apoiada em argumentos tão pobres como "distinguir o velho do novo". O público, normalmente conservador em relação ao património e pouco habituado a lidar com novidades "radicais", fustiga o autor do mamaracho (o termo é invariável) sem dó nem piedade...
No entanto não existem apenas as duas atitudes opostas que acima referi. Há inúmeros gradientes numa intervenção sobre uma peça patrimonial arquitectónica. Em países como a Itália onde, ao contrário de Portugal, a percentagem de renovação de edifícios antigos é superior à da construção de raiz, encontramos esses cambiantes. Este modo de actuar é grandemente responsável pela qualidade arquitectónica das cidades. Um dos protagonistas dessa actuação foi o arquitecto Carlo Scarpa.


Na sua intervenção no edifício do Instituto Universitário de Arquitectura de Veneza Scarpa demonstra claramente como a sua abordagem ao património é delicada e não se situa em nenhum dos extremos apontados. Durante os trabalhos foi descoberto um magnífico pórtico barroco em mármore que o arquitecto não usou de um modo óbvio, colocando-o a marcar a nova entrada. Ao invés, preferiu utilizá-lo evocativamente ao dar-lhe uma nova função assaz desconcertante: um lago! Todo o arranjo em torno desta peça museológica é absolutamente magistral, profundamente consciente do seu significado e, além de tudo o mais, de uma beleza arrebatadora. Verum Ipsum Factum.



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