
Desde que o cinema é cinema que tem estabelecido infindáveis e variadas relações com a arquitectura. Na verdade as possibilidades são enormes - temas, cenografia, design, autores, etc. - e processam-se em ambos os sentidos. Pessoalmente sempre me impressionou a arquitectura das grandes salas de cinema. Recordo-as com nostalgia ao ver os pequenos estúdios da actualidade, amorfos e cobertos de alcatifa, alinhados em bateria e enterrados em caves de centros comerciais. Um cinema tradicional era um edifício marcante que se apresentava imponente mas sereno no seu aspecto sofisticado; era uma referência urbana importante.
Quase todas as localidades, mesmo as pequenas, possuíam a sua sala de cinema ainda que apenas funcionasse às Quintas, aos Sábados à tarde e nas matinées de Domingo... As grandes cidades tinham edifícios soberbos - o Éden em Lisboa; o Batalha ou o Rivoli no Porto, para falar apenas em Portugal. Alguns - poucos - mantém-se ainda hoje enquanto outros deram lugar a centros comerciais, discotecas, bancos e salões de jogos, ou então foram pura e simplesmente votados ao abandono e demolidos após se terem transformado em ruínas perante a indiferença geral e a indignação de poucos.
A época dos grandes filmes - anos 30' e 40' - foi acompanhada por salas de cinema a condizer: edifícios magníficos que ostentavam títulos sonantes nas suas fachadas, como Odeon, um nome que se repetiu vezes sem conta por esse mundo fora. Uma sala de cinema desta época possuía uma plateia ampla, primeiro e segundo balcão, um foyer generoso onde não faltava um bar e, por vezes, um restaurante. Frequentar uma sala destas era o mesmo que embarcar num cruzeiro num luxuoso navio.
Na verdade a arquitectura moderna acarinhou bastante este tipo de equipamentos para o qual produziu belíssimas obras. O próprio sistema arquitectónico modernista - concepção, técnicas construtivas, linguagem, etc. - revelou-se particularmente adequado a estes edifícios e respondeu dando-nos espaços agradáveis e funcionais. A estética art déco explodiu nos acabamentos cuidados dos estuques, dos revestimentos em pedra, tecidos, metal trabalhado, envidraçados e, sobretudo, na madeira aplicada em quantidades generosas...



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