
Marc Chagall - The Bride (pormenor)
Puxou o fecho éclair, de alto a baixo. Por sua vez, tira o paletó e o coloca na cadeira. Tira também a gravata. Espera de calça, camisa e meia. Noêmia corre para a cama. Está de calcinha e soutien. Sabino estira-se a seu lado. Depois que ela tira a calcinha, ele sopra no seu ouvido: "Tira o soutien".
Na última semana, o lançamento nas livrarias brasileiras da nova edição de O Casamento, do Nelson Rodrigues, arrebatou-me: incrível como de tempos em tempos este autor atravessa meus dias com suas histórias tanto cruas, tanto amargas e tanto deliciosas. A Editora Agir – que já havia re-lançado a compilação "A vida como ela é" em finais do ano passado – nos brinda com mais essa edição luxuosa (e luxuriosa) capaz de atiçar até as vitrines mais castas e sisudas. Sinto-me compelida e ler Nelson e, mais uma vez, numa sádica e tortuosa elevação dos sentidos, visitar o Rio de Janeiro aos seus anos 50, 60... e me encontrar com aquelas mulheres pecaminosas, desnudas, bonitinhas, mas ordinárias e por vezes honestas, bem acompanhadas de seus homens ora tão sedutoramente cafajestes, ora cordeiramente tão enamorados. Acabo de pensar que ele é meu amargo Pablo Picasso dos trópicos.
Mas ao livro.
O primeiro de Nelson é dos seus mais polêmicos. Gira em torno do casamento da puríssima moça de alta sociedade, Glorinha com Teófilo. Sobre este, o noivo, logo nos é revelado a homossexualidade, a nós e ao pai da rapariguita, o Sabino que fica então em dúvida: conta ou não o que sabe? Mas esse é só o começo porque, ao passar das páginas, os personagens se mostram a diferença completa do que a princípio imaginávamos, capazes de nos levar a um desfecho que é, minimamente, sórdido. Na opinião do Ministro da Justiça do Governo Castelo Branco, que censurou a obra, indecoroso.
O Casamento, no Submarino.
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