
Hôtel Dieu, França
A substituição dos grandes estabelecimentos amontoados e desorganizados – como era o hôtel Dieu em Paris, uma espécie de lugar para se cair morto – por pequenos prédios que passaram a atender a demanda dos bairros separando e agrupando seus doentes (que agora chegavam com alguma esperança de saírem), para reunir informações, controlar epidemias e manter as autoridades informadas sobre o estado sanitário de cada região, mostra o quanto o modelo panóptico foi adaptado com as conformidades e preocupações da época. Por exemplo, a separação dos doentes segundo a endemia (e posses) evita infecções e a temível contaminação por micróbios; outra verdadeira obsessão que quase tornou impossível a dissociação da figura do médico da do higienista, não só na Europa, mas em todo o mundo que queria-se civilizado.
O sujeito adoecido (agente transmissor de micróbios), o deficiente mental (agente transmissor de confusão), o deficiente físico (agente transmissor de vergonha)... Toda sociedade deveria naquele momento “ser limpa” desses elementos que só interferiam em sua coesão.
Antes escondidos em casa, os doentes e deficientes, num destino muito semelhante ao dos criminosos, são afastados e interditados, sendo levados para instituições em lugares distantes e “especializados” onde serão vigiados, educados e, sobretudo, impedidos de uma realocação na comunidade se considerados por seus tratadores como irrecuperáveis. Segundo o historiador Alain Corbain:
A presença do louco que se tornou adulto fica insuportável; na maioria das vezes, os que o cercam decidem afastá-lo, principalmente quando se trata de uma mulher solteira, menos útil que o homem na manutenção do grupo. Até a aplicação da lei de 1838, que define a condição de alienado, reina a mais perfeita anarquia neste terreno. Por iniciativa da família, a internação pode ser decidida por um simples certificado do prefeito, do padre, de uma religiosa ou de qualquer outro notável local.

Hôtel Dieu, fachada e plano arquitectónico, século XVIII

Royal Infirmary, Edimburgo, plano arquitectónico de 1870
Particularmente essa máquina arquitetônica funciona bem e é amplamente difundida no tratamento dos loucos a começar pelo diagnóstico: o sistema social disciplinar, ao identificar um indivíduo não-coeso, que não infringe nenhum expediente legal, mas que ainda sim precisa ser redisciplinado para voltar ao esquema externo vigente, já tem a quem recorrer (!).
Ainda segundo Alain Corbain “a atenção para com os fenômenos psíquicos aumenta desmesuravelmente entre 1800 e 1914”. Desorientados e envolvidos numa série de sincretismos teóricos, os médicos alienistas trabalharam uníssonos e com afinco numa tal “evolução das moralidades”, assistindo ao longo de dois séculos a sua total ineficácia terapêutica.
Planos arquitectónicos panópticos na galeria Olhares
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