Panóptico #2: as instituições médicas

Publicado em arquitectura por prill em 20 jun 2007 05:25 PM | 3 comentários

 Panoptico Bentham Historia Foucault XVII Prisoes Sociedade Disciplinar Inglaterra Franca Instituicoes Medicas
Hôtel Dieu, França

A substituição dos grandes estabelecimentos amontoados e desorganizados – como era o hôtel Dieu em Paris, uma espécie de lugar para se cair morto – por pequenos prédios que passaram a atender a demanda dos bairros separando e agrupando seus doentes (que agora chegavam com alguma esperança de saírem), para reunir informações, controlar epidemias e manter as autoridades informadas sobre o estado sanitário de cada região, mostra o quanto o modelo panóptico foi adaptado com as conformidades e preocupações da época. Por exemplo, a separação dos doentes segundo a endemia (e posses) evita infecções e a temível contaminação por micróbios; outra verdadeira obsessão que quase tornou impossível a dissociação da figura do médico da do higienista, não só na Europa, mas em todo o mundo que queria-se civilizado.

O sujeito adoecido (agente transmissor de micróbios), o deficiente mental (agente transmissor de confusão), o deficiente físico (agente transmissor de vergonha)... Toda sociedade deveria naquele momento “ser limpa” desses elementos que só interferiam em sua coesão.

Antes escondidos em casa, os doentes e deficientes, num destino muito semelhante ao dos criminosos, são afastados e interditados, sendo levados para instituições em lugares distantes e “especializados” onde serão vigiados, educados e, sobretudo, impedidos de uma realocação na comunidade se considerados por seus tratadores como irrecuperáveis. Segundo o historiador Alain Corbain:

A presença do louco que se tornou adulto fica insuportável; na maioria das vezes, os que o cercam decidem afastá-lo, principalmente quando se trata de uma mulher solteira, menos útil que o homem na manutenção do grupo. Até a aplicação da lei de 1838, que define a condição de alienado, reina a mais perfeita anarquia neste terreno. Por iniciativa da família, a internação pode ser decidida por um simples certificado do prefeito, do padre, de uma religiosa ou de qualquer outro notável local.

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Hôtel Dieu, fachada e plano arquitectónico, século XVIII

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Royal Infirmary, Edimburgo, plano arquitectónico de 1870

Particularmente essa máquina arquitetônica funciona bem e é amplamente difundida no tratamento dos loucos a começar pelo diagnóstico: o sistema social disciplinar, ao identificar um indivíduo não-coeso, que não infringe nenhum expediente legal, mas que ainda sim precisa ser redisciplinado para voltar ao esquema externo vigente, já tem a quem recorrer (!).

Ainda segundo Alain Corbain “a atenção para com os fenômenos psíquicos aumenta desmesuravelmente entre 1800 e 1914”. Desorientados e envolvidos numa série de sincretismos teóricos, os médicos alienistas trabalharam uníssonos e com afinco numa tal “evolução das moralidades”, assistindo ao longo de dois séculos a sua total ineficácia terapêutica.

Planos arquitectónicos panópticos na galeria Olhares

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3 comentários

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Nossa Prill, fazia tempo que não passava aqui...

Gostei bastante desse artigo, me faz pensar na luta antimanicomial ... nas mortes veladas, nos sofrimentos dos que estiveram e estão envolvidos nessa questão, nessa condição.

Fiquei triste...

Isabella em 22 de junho de 2007 às 23h21

Artigo muito bom por todos os aspectos, arquitetonico, social e critico, provavelmente esse movimento que Começa com Bentham baseado Hobes, deve ter gerado um outro movimento o "anti-panoptico", que seria a preservaçao da vida privada dentro de um coletivo, em brasilia suas superquadras tem essa ideia "anti-panoptica"...escrevam agora sobre isso....

Marco Aurelio em 30 de março de 2008 às 18h10

Se em nosso século, com todas as instituições de defesa dos direitos humanos, aliadas a chamada inclusão social, e a visão de Nise Silveira, que propõe um tratamento humanizado para os "não-coesos", que inclui a participação da família, como ferramenta de recuperação e tratamento, como tudo isso, os doentes mentais ainda sofrem discriminação e são alvo de zombarias, imaginem três séculos atrás. Entendo que o modelo panoptico hospitalar, foi uma forma da medicina caminhar em busca de uma sistematização. O que a humanidade não podia era deixar os não-coesos entregue a toda sorte de preconceito e maus tratos.

Valter Gomes da Conceição Neto em 18 de abril de 2008 às 19h56







 
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